quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Virgens de fogo


















Tal à doce maçã,
que enrubesce-se
acima, nos mais altos ramos,
bem lá no alto, intocada.
_Esqueçeram-na os catadores!
Não, em absoluto.
Não a puderam alcançar.


οἶον τὸ γλυχύμαλον
ἐρεύθεται ἄχρωι ἐπ' ὔσδωι,
ἄχρον ἐπ' ἀχροτάτωι, λελάθοντο
δὲ μαλοδρόπηες·
ὀν μὰν ἐχλελάθοντ' , ἀλλ' οὐχ
ἐδύναντ' ἐπίχεσθαι.


variação sobre um fragmento de Sapho.

Viva!

Um feliz ano novo a todas e todos !
Deixo-vos com a imagem abaixo. Acho que ela diz, melhor que as palavras, os anseios que temos de um mundo e uma vida melhores.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Virá que eu vi


De Hitler, a lição incompleta

Esta música me lembra uma namorada que tive.
Houve um tempo que o nome "judeu" trazia-me a imagem dos campos de concentração. Sim, aqueles cadáveres magérrimos empilhados em valas coletivas que vi em revistas quando criança criaram essa associação para sempre em minha mente.
Mas "judeu" também queria dizer "arte", como o violino de Misha Elman.



Agora "judeu" virou sinônimo de nazi-fascismo, de genocídio, de matadores de criancinhas.
O que diriam Misha Elman, Isaac Stern, Gustav Mahler, Arnold Schoemberg, Straus, Gombrich, Kafka, Mendelssonhn, Andre Previn, Benjamim, Heine, Rubinstein, Stefanie Zweig, e tantos outros. A lista é só de artistas e escritores judeus austríacos, alemães e ucranianos. Alguns dentre muitos.
Um povo que produziu tanta beleza parece agora perdido em uma guerra de extermínio. Querem fazer aos palestinos o que os nazistas fizeram com eles.
Parece que não aprenderam, de Hitler, a lição completa.

domingo, 28 de dezembro de 2008

A luta desigual dos Habirus

















Poesia para os nazi-sionistas raivosos



Não iremos embora

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
...
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar a comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
...
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede espremeremos as pedras
E comeremos terra quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue

Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro.


Poesia da resistência palestina Tawfic Zayyad, palestino de Nazaré

Contato profundo

Por Deus que já nem esperava mais por uma explicação.

Cada um de vocês é uma parte integral um do outro, como espíritos que estão fingindo estar separados entre si. Enquanto jogam esse jogo, vocês se comunicam em muitos níveis diferentes. Vocês falam através de suas palavras, com seu riso ou com suas lágrimas. Se comunicam com seus olhares ou pela linguagem corporal, através de um sorriso ou pela expressão do rosto. E também se comunicam pelo toque, muito mais do que imaginam.. Muitas vezes, essas formas de comunicação não-verbal na realidade falam mais alto do que as palavras em que vocês confiam tanto. À medida que todos os humanos continuarem a evoluir, vocês verão alterações em todas as formas de comunicação.
[...]
Em sua caminhada pela vida, vocês encontrarão outras almas; algumas delas vocês conhecerão: algumas vezes será com o seu esposo, outras vezes com um estranho, ou poderá ser com um amigo — e vocês olharão para eles de forma diferente da usual; sentirão que estão se apaixonando. Saibam que então estarão apaixonados pela sua própria imagem, refletida de diferentes espelhos.
[...]
De uma maneira geral, no começo o que acontecerá será que as pessoas experimentarão um pouco dessas novas energias, para depois dar um passo atrás, de volta a seus antigos sistemas de crença. Trata-se de um processo normal, então não julguem muito duramente se isso vier a acontecer consigo ou com seus amigos. Muitas vezes acontecerá deles irem em frente; eles vivenciarão o Contato Profundo com uma outra pessoa e ficarão iluminados com a experiência. Um sistema de crença muito simples é o da percepção de que só se pode amar uma pessoa, assim como em um casamento monogâmico. No entanto, qualquer mãe com mais de um filho poderá lhes dizer que isso não é verdade.

[...]
Dirigimo-nos aos espelhos deste planeta. Muitos dentre vocês escolheram não fazer outra coisa, a não ser funcionar como um espelho preciso para que as pessoas pudessem se ver refletidas em vocês. Vocês são os curadores e os professores do Planeta Terra e agora vocês estão entrando em posição. E estão chegando bem na hora. Sintam e saibam que passarão a viver suas vidas diárias num processo de se apaixonarem. Virá um tempo em que vocês se apaixonarão só por andar pela rua. E que planeta alegre e engraçado haverá de ser este, pois vocês então nunca mais terão espaço em seus corações para travar guerras, uma vez que o tenham preenchido com amor. Não terão espaço em seus corações para discórdias quando o tiverem preenchido de amor. E é essa a idéia. Saibam que o reflexo que vêm em outra pessoa é o seu próprio reflexo. E existe o reverso da moeda em tudo isso, pois vocês atualmente vivem em um campo de polaridade.
[...]

in Os faróis de luz

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um fim de ano plural, como o Brasil.













Composição para Exu, amarelo e lilás. Relaciono à estrela de Belém, a quem vai abrindo os caminhos. É um de meus desenhos sobre os orixás.
Não é por nada não, mas dá um ótimo papel de parede,
tem definição e energia boas,
podes crer.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Deus, se existe, só se importa com nós,
quando estamos em perigo,
quando sair desse perigo for importante para outros.
Deus só se importa com nós,
não comigo.
Deus é plural,
é de eus.

Os livros de 2008

Entre os livros que li durante o ano que se finda, quero fazer uma pequena, mas significativa, lista dos que considerei os melhores. Devo ter lido uma média de quatro livros por mês. São os seguintes, sendo que alguns trazem os links dos modestos comentários que fiz sobre eles:

Madame Bovary, de Flaubert, foi um livro belo, um excelente livro. Considerei-o um clássico.
A San Felice, de Dumas Père, que me custou mais de um mês para percorrer suas 1800 páginas, também foi um livro tocante, como a maioria do autor francês.
A feiticeira, de Jules Michelet, curioso e difícil que precisarei reler para compreendê-lo melhor.
O Homem que ri, de Victor Hugo, um livro muito triste.
E, os três mais importantes, daqueles que mudam alguma coisa na alma da gente, ainda que se não perceba:
O Idiota, de Dostoievsky, uma maravilha, emocionou-me profundamente.
Os miseráveis, também de Victor Hugo, cujo protagonista só está a um passo atrás de Jesus, se é que não caminha ao lado dele.
E Memórias de um médico (1,2,3,4), também de Dumas Père, uma coleção de várias livros, todos interligados numa epopéia de mais de vinte anos da história de França, contando ao todo quase 5.000 páginas, onde desfilam inúmeros personagens, os quais não esquecerei nunca. Ou pelo menos perto disso.

Ano que vem, se conseguir realizar os planos, quero estudar francês com mais profundidade do que a gramática que comprei, continuar com a franco-literatura, pois ainda faltam muitos livros de Dumas (reler Os três mosqueteiros, Vinte anos depois e alguns outros que ainda não li, tais como A rainha Margot, O Visconde de Bragelone, Luis XIV e seu século, O cavaleiro de Harmental, entre outros), de Victor Hugo (A Notre Dame de Paris, O último dia de um condenado, entre outros), de Balzac, Eugene Sue entre outros.
O interesse pela literatura francesa vem das vidas passadas, é claro, marcadas ainda pelo sobrenome e por devaneios difusos da alma. Não precisam acreditar nisso.
Quero também, atacar um pouco a literatura brasileira do século dezenove, principalmente Machado e Alencar. Todos, é claro, empréstimos da biblioteca pública. Comprar, só as raridades.
Os livros de autores contemporâneos, não os desprezo, mas é que a maioria tem que ser comprada, pois demoram a aparecer nas estantes da Luis de Bessa os poucos que ali chegam.
Tudo planos, talvez quimeras, como o amor...

Sobre o natal

SONETO 575 REVISITADO

Quem disse que o Natal é só mercado?
Por trás do panetone ou da castanha
está um publicitário, uma campanha,
o lucro, as estatísticas, o Estado.

É certo. Mas o espírito arraigado
mais dura que o presente que se ganha,
mais lembra que um peru, que uma champanha
a alguém com mais futuro que passado.

Pois ela, a criancinha, é quem segura
o tempo, em seu efêmero momento,
salvando algo de júbilo ou ternura.

Esqueça-se o comércio! Ainda tento
rever cada Natal, cada gravura
em meio a tanto adulto rabugento...

Glauco Mattoso


in http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/index5.html

domingo, 21 de dezembro de 2008

um anjo já te pediu ajuda?

Ele estava alimentando os cachorros. Passava das dez daquela noite um tanto fria de um quase verão. Misturava os restos do macarrão à ração para que os cães tivessem o seu prazer. Ouviu quando bateram no portão. Virou-se e dirigiu-se para lá e, como estava escuro, precisou chegar bem perto da porta e da fechadura para se certificar que o irmão, ao sair, havia passado a chave. Voltou à casa, já pensando que, quem quer que fosse àquela hora, lhe traria uma experiência diferente. A pessoa bateu novamente, e dessa vez com mais vigor, ao mesmo tempo que ele rodava a chave na fechadura, o que fez o estranho interromper as batidas. Ali, na porta da rua, por causa das muitas árvores, é muito escuro, pois não chega a luminosidade dos dois postes que se encontram um de cada lado da casa. O homem, pois era um homem, lhe disse: _Oh senhor, deixa eu te mostrar. E pegando de um saco grande que tinha ao lado, deitou-o ao chão e abriu-o para mostrar ao dono da casa o que tinha dentro. O dono da casa lhe disse então: _De que o senhor precisa?
_Eu preciso ir para casa, senhor, e também levar comida às crianças.
E abaixando-se novamente, abriu o saco e disse:
_Olha, curtidinha. Da outra vez eu não soquei, o senhor se lembra não?
Então ele se lembrou do homem. Havia lhe comprado um saco de esterco há uns meses atrás.
_É verdade, estou vendo, esse daí está bem soltinho. O senhor espere um instante.
Voltou à casa e pegou vinte reais.
_Pode colocar aqui, senhor. E deu-lhe o dinheiro.
Qual foi a alegria daquele homem, às dez horas da noite de um domingo, carregando aquele saco pesado de esterco às costas, de um lado para o outro, como um passarinho que ainda não havia ganhado o dia. Ah pobreza terrível!
_Oh senhor, me fez muito feliz! salvou o meu dia, senhor! - dizia senhor várias vezes - Oh como estou feliz!
E passava as mãos sobre o rosto como que para acreditar naquele dinheiro. Vinte reais.
O homem lhe disse que fazia qualquer trabalho, pintura, alvenaria, telhado, jardinagem, piso, tudo.
Ele não tinha um telefone de contato e o dono da casa pediu-lhe que, se pudesse, voltasse e deixasse na caixa de correio um contato. O telefone da irmã que havia esquecido. O homem agradeceu novamente. Estava visivelmente feliz.
Oh, como foi bom ver alguém feliz assim, ele pensou. Como é bom ver feliz um homem que o merece. Vinte reais: a passagem e o alimento.
Ele observou, por um instante ainda, o homem se afastar e fechou a porta.
As lágrimas imediatamente correram-lhe pela face. O homem pensou que ele fosse um anjo a salvá-lo naquela noite escura. Não sabia que o anjo era ele mesmo.

Danton, Marat, Robespierre e o 93























Estou lúgubre. Dizem que uma das formas de aprender a amar a si mesmo é assistindo a um paciente terminal. Ver o sofrimento alheio faz diminuir o nosso. Acabei mais uma novela: "93" de Victor Hugo. Em francês Quatrevingt-treize. O livro narra acontecimentos do ano de 1793 na França. Era a época do terror e da guerra da Vendéia, na Bretanha. Esta guerra civil é o fio condutor do romance. Foi ali que se arquitetou um exército contra-revolucionário formado de camponeses apegados à tradição monárquica e aristocrática, orgulhosos da sua vassalagem, incitados pelos padres e liderados por nobres da região. Paris, por meio do Comitê de Salvação Pública, decidiu por exterminar a rebelião. A guerra, que durou até 99, matou algumas centenas de milhares de pessoas. A ordem era "Nada de quartel". Ou seja, não poderia haver misericórdia. As tropas republicanas foram acusadas de cometer o que teria sido o primeiro genocídio da era moderna. Mulheres e crianças foram executadas aos milhares. O general Westermann enviado para sufocar a rebelião escreveu em seu relatório final: :" Não há mais Vendéia . Está morta sob nossa espada livre . Degolei os homens e as mulheres, esmaguei as crianças sob as patas dos cavalos . Não tenho nenhum prisioneiro , exterminei a todos, não há mais mulheres para dar nascimento a novos rebelados. " É um bom livro que narra os heroísmos dos corações e também suas crueldades. A revolução foi importante, mas custou caro por demais. Cometeram muitos crimes em nome da liberdade. Será que valeu a pena? Será que o mundo é mais justo hoje? Será? Escola para todos, eleições, direitos individuais, isto tudo de fato existe?
O 93 foi o último romance escrito por Victor Hugo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Soneto para um mar melancólico

A linha tênue da ilusão rompeu
o sonho que me percorreu, senti
que não errei em eleger a ti.
Oh, linda, tu, quimera, engano meu!

E o coração uma vez mais sofreu
a ausência de outro coração que aqui
junto do meu a vida ofereceu; pedi
a Deus o instante, a graça, o himeneu.

Mas quão inútil esperar que a vida
traga esse tempo de gozar, de canto,
a vida só me traz o fel e o pranto.

Inda esta vez a solidão, a estrela
de meu caminho é a esperança em vê-la
aqui, ali ou acolá, querida.

Ps. No quarto verso, da segunda estrofe, achei por bem trocar a palavra gineceu por himeneu. Gineceu é por demais negativa, eu acho. E além do mais, a segunda tem mais a ver com o poema. Não me incomoda alterá-lo, assim, depois de postado. Tudo está vivo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

o mar















Aproveitem o papel de parede. A água se agitando.
É um desenho meu.

Típica Belo Horizonte

A chuva ainda cai constante na região de Belo Horizonte. A quinta-feira amanheceu com chuva fraca, que persiste até o momento. De acordo com as medições do Instituto Nacional de Meteorologia, o total de chuva acumulado em Belo Horizonte, até as 10 horas de ontem, é de 299 milímetros, muito perto da média histórica de dezembro que é de 319 milímetros. Praticamente toda a chuva foi acumulada entre a sexta-feira e ontem.
O excesso de chuva observado esta semana é climaticamente normal em Belo Horizonte e também em outras áreas de Minas Gerais. Historicamente, o mês de dezembro é o que mais chove na capital mineira e na maioria das regiões do Estado de Minas. Entre anos 2000 e 2007, apenas dezembro de 2007 e de 2003 terminaram com chuva abaixo do normal. Em Dezembro de 2005, Belo Horizonte recebeu cerca de 500 milímetros de chuva. Nos anos de 2002, 2001 e 2005 o total de chuva sobre a cidade ficou em torno de 400 milímetros, de acordo com as medições do Instituto Nacional de Meteorologia.
A chuva dos últimos dias vem sendo provocada pelas áreas de instabilidade da Zona de Convergência do Atlântico Sul - ZCAS - um sistema de tempo que todos os anos se formam sobre o Brasil, com o maior ou menor intensidade. A ZCAS é formada por uma extensa área de nuvens que se espalha por grande parte do Norte, do Centro-Oeste e do Sudeste do Brasil e por uma frente fria que fica semi-estacionária ao largo do litoral do Sudeste. Este sistema demora vários dias para se dissipar. Ainda há previsão de mais chuva para Minas Gerais, pelo menos até a segunda-feira que vem.



http://www.climatempo.com.br/destaquecompleto.php

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

As chuvas chegaram
















Não se vê o sol desde quinta-feira passada aqui em Belo Horizonte. Chove quase que o tempo todo, uma chuva grossa e sem relâmpagos. Já conheço nuvens como essas. Costumam ficar duas ou três semanas. A umidade chega até o osso. As pessoas mais pobres, como sempre, é que sofrem o pior.
Daqui a dez minutos sou eu que saio para a aventura de moto e chuva. Vou para a escola da tarde, lá no morro e, de lá, no fim da tarde, para a outra em Contagem. Esta está com os dias contados para mim. E para ficar bem repetitivo, depois eu conto mais sobre isso. Hoje à tarde será de suma importância.

sobre o aborto

Uma reportagem importante sobre um têma polêmico e que precisa ser retirado da esfera da moral, hipócrita já se vê, como tudo que parte da igreja católica, que, como sabe até o meu cachorro, não tem moral alguma, depois de ter torturado e mandado à morte milhares, se não milhões de seres humanos, particularmente mulheres.
Da carta capital:

A missão de lidar com algo condenado à marginalidade ganhou contornos surreais no episódio de Campo Grande (MS). Insuflados por uma reportagem veiculada pela afiliada da Rede Globo, a revelar a existência de uma clínica que praticava abortos na cidade, o promotor Paulo Cezar dos Passos, a delegada Regina Márcia Mota e o juiz Aluízio Pereira dos Santos travaram uma batalha sem precedentes contra quase 10 mil mulheres, todas acusadas de praticar aborto.

Após a veiculação da reportagem, em abril de 2007, o Ministério Público denunciou as 9.896 mulheres, cujos prontuários médicos foram apreendidos na clínica. Em novembro, o juiz determinou o arquivamento de 7.698 fichas nas quais não havia “fortes indícios” de aborto ou o registro era mais antigo do que a prescrição do crime, que é de 8 anos. Após essa triagem, cerca de 1,5 mil mulheres estão sendo indiciadas por crime de aborto. Cento e cinqüenta já foram investigadas e, até o momento, perto de 50 foram convocadas e aceitaram um acordo que propõe a suspensão do processo em troca do cumprimento de condições, sendo o trabalho comunitário em creches e instituições carentes uma das opções.

“Meu objetivo não é perseguir mulheres, mas não posso prevaricar”, argumenta Santos, de 45 anos, 11 como juiz. Ele se declara um católico que vai à igreja em batizados e casamentos. “Não sou tão ativo como disseram.” Santos considera-se injustiçado pelo teor das reportagens veiculadas sobre o caso, “um monte de absurdos”, e discorda das críticas que recebeu, de defensores dos direitos das mulheres, de que enviar acusadas de aborto para trabalhar em creches é uma forma de tortura psicológica. “Na minha visão, é uma oportunidade para a mulher que cometeu aborto ver como outras conseguem criar os filhos, apesar das dificuldades, e refletir. Jamais imporia uma situação humilhante”, sustenta. Ele credita todas as atitudes tomadas à letra fria da lei, e não esconde o cansaço com o tema. “No dia que o aborto deixar de ser crime, ótimo, menos perturbação na minha vida.”

continua...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Homem que ri



















Terminei ontem à noite "O Homem que ri", de Victor Hugo.
Aos poucos vou entendendo melhor o porquê d' ele ter dito:
"Já não tenho inimigos quando eles são infelizes."
Eta livro triste sô!

Que mundo maravilhoso



















O mundo está, sim, muito louco. Besteira, sempre foi.
Falam em destruição da Terra. Outra besteira,
poderemos até nos destruir,
mas a Terra continuará sem a gente.
A não ser que por saudades de nós,
a quem tem amado tanto,
ela se suicide
de tristeza.

Judiciário brasileiro

Gilmar Mendes, o supremo, dando um jeitinho.



Segunda à noite, no ex-excelente programa Roda Viva, agora teatro da farsa serrista. Não vou assistir, é claro. Mas, com certeza, vou ler os comentários no dia seguinte. Fico imaginando as pérolas que serão proferidas por Reinaldinho Azevedo, o pinguim e Eliane Cantanhêde, a musa da febre amarela.

P.S. Desculpem-me a chacota, mas eles merecem.

Sapho e a maestria das palavras

Tenho vontade de investir na tradução dos versos de Safo. Tradução talvez não seja a palavra correta, mas recriação, variação, transcriação sejam mais adequadas. Quase tudo o que restou são fragmentos inteiramente desfigurados. Lapsos, ausências, fendas, frinchas, interstícios. Onde vagueia a imaginação. Há, também, o eólico estranho e o uso que faz das figuras de linguagem, notadamente os muitos sentidos possíveis de algumas palavras e a constância de neologismos.
No fragmento de poema abaixo, a palavra ὄσσοις (óssois) é o dativo do irregular dual ὄσσε (ósse), que significa 'os dois olhos'. O dual é um terceiro número, relativamente pouco usado, pois tem a concorrência do plural, e que serve para designar seres ou coisas que aparecem em pares, como os famosos gêmeos, filhos de Zeus e Leda e irmãos de Helena e Clitemnestra , Castor e Pólux, ou as mãos, as pernas, um casal, dois amigos, etc. No entanto, há a palavra ὅσσοις (hóssois), onde o primeiro sinal ῾ é uma marca de aspiração da vogal, como o h da língua inglesa, ou os nossos rr. A palavra é uma declinação de ὅσος ou ὅσσος, cuja principal tradução é um advérbio, quanto/quão/tanto/tão. Como advérbio, em grego, apenas flexiona-se em gênero: masculino, feminino e neutro. Mas pode ter muitos outros significados e funções declináveis. Daí a complexidade, que não cabe expor aqui, mesmo porque não tenho a competência para isto.

Assim, após esta introdução enfadonha, mas necessária, o poema:

στᾶθι χἄντα φίλη*
χαὶ τὰν ἐπ' ὄσσοις' ὀμπέτασον χάριν


(stàthi chánta phílee

chai tàn êp (i) óssois (i) ompétason chárin)
Que transcrevi assim:
diante a mim, amiga, fique
e envolva-me com a graça de teus olhos

Como estava dizendo sobre os duplos sentidos das palavras sáficas, poder-se-ia transcrever o poema assim, utilizando-se o vocábulo tamanha como adjetivo de graça, como se os olhos do amigo* fossem e significassem um tanto de coisas?
diante de mim, amiga, fique
e envolva-me com tamanha graça
Na verdade não. ὄσσοις está no dativo/masculino/plural e χάριν - graça - no acusativo/feminino/singular. A primeira não poderia qualificar a segunda. Em grego, o adjetivo acompanha o caso em que está o substantivo. No entanto, me parece, fica ainda o duplo sentido, a insinuação. Safo era mestra nisso.

Acho que hoje abusei da paciência de meus leitores. Vou ter que acabar criando um outro blog, só para os poemas de Safo.

* No original φίλος, amigo. Tomei a liberdade de, neste caso, alterar o gênero.


sábado, 13 de dezembro de 2008

Pessoas que fazem a diferença...

Também do blog da Glória.

Enquanto isso no planeta Terra...

A hipocrisia dos países ricos

(Texto do Neto, diretor de criação e sócio da Bullet, sobre a crise mundial.)

Vou fazer um slideshow para você.É comum, você já viu essas imagens antes.Quem sabe até já se acostumou com elas.Começa com aquelas crianças famintas da África.Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.Aquelas com moscas nos olhos.Os slides se sucedem.Êxodos de populações inteiras.Gente faminta.Gente pobre.Gente sem futuro.Durante décadas, vimos essas imagens.No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.São imagens de miséria que comovem.São imagens que criam plataformas de governo.Criam ONGs.Criam entidades.Criam movimentos sociais.A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.Ano após ano, discutiu-se o que fazer.Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.Resolver, capicce?Extinguir.Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.Não sei como calcularam este número.Mas digamos que esteja subestimado.Digamos que seja o dobro.Ou o triplo.Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

P.S. É uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar. Se quiser, repasse, se não, o que importa? O nosso almoço tá garantido mesmo...

O P.S. acima é da Glória, de onde trouxe o texto.

Vieste
















Vieste e eu te ansiava.
Meu coração,
queimando há muito
de desejo,
serenaste.

ἤλθες ἔγω δὲ σ' ἐμαιόμαν
ὂν δ' ἔψυξας ἔμαν
φρένα χαιομέναν
πόθωι
Sapho (variação livre minha)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

lula e o pré-sal chamado povo

Um link do blog do Azenha.

...Lembro bem de suas barbas hirsutas, de seu jeito desajeitado, sua cara suja e oleosa; seu semblante verdadeiro e puro, seu ar de anjo natural, de um ser fabricado com os tênues fios que afinam os instrumentos da orquestra que toca a sinfonia do universo...
Continua...

Ela


















Tenho falado, um tanto veladamente é verdade, aqui no blog, sobre ela. É uma forma de desabafo porque não tenho mesmo com quem falar. Se é que alguém o tem.
Me lembrei aqui de Dido e Ana no livro de Virgílio.
Há muitos anos que me isolei em mim mesmo, não permitindo que outros se aproximem. Vinha vivendo razoavelmente assim. Sem emoções fortes, mas dentro de um certo equilíbrio; não estava, digamos, com desassossegos. Não é que esteja sofrendo ou algo assim, mas estou correndo um certo perigo.
Eros me trespassa e agita...
Tudo ainda não passou de alguns olhares. E eu, como sempre, já teci um monte de conjecturas. O certo, diz uma voz tranquilamente no fundo de minha cuca, é ter paciência.
O que tiver que ser será.
Ou não?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Papo ufano

Muitas linhas confluem no mesmo nó, que pode ser o fim
ou não. Quiçá o começo. Como é mesmo que Deleuze dizia? Encontros marcados?
O Brasil de tantos... tantos sonhos, jamais esperado, mas sempre querido,
enfim
se faz...
junto comigo
ainda aqui.
Sempre soube que, de mim, os melhores eram o Brasil e
eu mesmo.

Música - Neil Young

Um mestre da música, um cara que honra a camisa de roqueiro, uma lenda viva. Figura sensível, talentoso e genial. Gosto muito. Quero voltar a postar clips aqui no blog e, aproveitando o embalo...


Sapho

] Eros
me trespassa e agita, como o vento
que, dos altos montes, desaba
sobre os carvalhos [

(Joaquim Brasil, variação)

Manifestação a favor da Educação

video

O vídeo é da passeata que fizemos na noite de quinta feira, 27 de novembro, no coração de Contagem. Éramos pouco mais de mil: 200 professores e o restante de alunos e pais, além dos espias do governo, claro. Protestávamos contra a implantação do pró-jovem no município, que estava (e ainda está) sendo feita autoritariamente e sem qualquer diálogo com as escolas e a comunidade. A prefeitura (que é do PT, mas que junto com a de BH, está tendo um caso com o governo Aécio Neves) nunca deu a menor bola para os professores. Nossas manifestações sempre foram sumariamente ignoradas. E como a unidade da categoria não existe, fruto de um quadro docente onde predominam professoras já em fim de carreira, que sempre furam as greves, conformadas que são com as coisas e com as suas tristes vidas, vamos engolindo o desdém.
No entanto, a manifestação que vocês viram acima surtiu efeito. Não foi por causa do descontentamento dos professores, mas sim pela presença maciça das comunidades. Que tomou o microfone e se posicionou criticamente com relação às mencionadas reformas que obrigariam alunas e alunos a se deslocarem do bairro, à noite e, em muitas casos, a pé. Entre outras coisas. O que a prefeitura quer é passar a mão no dinheiro do governo federal para substituir a sua própria responsabilidade, o seu próprio e obrigatório gasto com a educação do município. Como, para poder receber a verba, tinham eles (os burocratas politiquentos da secretaria de educação) que iniciar com mais de mil alunos o pró-jovem, decidiram tirá-los da EJA. Não querem ter que gastar dinheiro com a necessária campanha para mobilizar o público-alvo do programa federal: o jovem de periferia, desocupado e perdido, que se encontra com um pé (se não os dois) no crime. Então resolveu a prefeitura se apropriar dos alunos da EJA que são, em sua maioria empregados, que trabalham o dia inteiro e à noite vão à escola, e que não estão interessados em pró-jovem e nem em ter que se deslocar para longe do bairro onde moram, principalmente à noite, depois de um dia de trabalho.
A prefeita Marília Campos suspendeu a operação. O melhor para ela é deixar de ser autoritária e dialogar com a escola e a comunidade. Somos nós que podemos diagnosticar os alunos com o perfil que o pró-jovem demanda. Nós é que estamos no contato real e cotidiano com a comunidade. A prefeita retrocedeu por causa do envolvimento da comunidade. Nós, professores, sozinhos, no Brasil, somos nada apesar de muitos. Mas o povo, e isso foi o mais bonito, tem poder. A passeata me lembrou muito aquelas das Diretas-já, lá nos distantes anos oitenta. Havia um sentimento de união e harmonia: não houve um só incidente, a população abraçou a manifestação, ainda que esta lhe impedisse de pegar o ônibus, de chegar em casa; mesmo os motoristas, que tiveram que aguardar quase meia hora a liberação da Av. João César de Oliveira ( uma das principais da cidade), não buzinaram uma vez sequer. Foi mesmo bonito.
Power to the people!

Florbela Espanca





















EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca (08.12.1894 - 08.12.1930)

Cai ou não cai?



















Henrique Meirelles, do BC, esteve hoje às 11:00 no Planalto para uma reunião com o Presidente Lula; Copom anuncia nesta quarta-feira decisão sobre taxa de juro
(Carta Maior com agências, 08-12, 12:29)

Tomara que seja verdade e que o conservador Banco Central brasileiro diminua consideravelmente a taxa de juros. É o que espero para comprar a porcaria do carro. Ainda não posso viver sem ele.


Enquanto isso, em Pindorama...














por EMIR SADER, na CARTA MAIOR

A manchete do Diário Oficial Tucano (DOT), a FSP (Força Serra Presidente) estava pronta. O editor chefe encomendou nova pesquisa de opinião, menos de 2 meses antes da anterior, para constatar os evidentes desgastes na imagem do presidente, com a crise e, principalmente, com o clima de pânico e de pessimismo que a mídia privada – e em especial, o DOT – tinham disseminado. Como toda pesquisa fabricada, não se pesquisava a popularidade de Lula, mas a eficácia da campanha de desgaste que a mídia oligárquica tinha desatado. Propagandeia-se todo o tempo OMO LAVA MAIS BRANCO e se contrata pesquisa para conferir a efetividade da lavagem de cérebro.

Tudo pronto, convocados os zelosos funcionários tucanos da página 2, os chamados “especialistas” – disfarce da tucana fernandohenriquista - para comentar, tudo pronto para explorar a queda irreversível do apoio a Lula. CRISE FAZ DESPENCAR POPULARIDADE DE LULA. Ou: LUA DE MEL DE LULA TERMINA DEFINITIVAMENTE. Sub-título: Serra se diz pronto para enfrentar a crise. Economistas tucanos: Só volta das privatizações pode salvar o Brasil.

Faltava combinar com o povo brasileiro. Mais uma vez “o povo derrotou a opinião pública” fabricada pela mídia privada. 70% de apoio, 6% a mais que na ultima pesquisa, depois da intensa campanha propagandística contra o governo. Crescimento em todos os setores – nível de renda, nível de escolaridade, região do país, tudo, tudo, pior não poderia ser para a FSP e a direita brasileira.Conseguiram apoio de apenas 7% de rejeição a Lula, com tudo o que gastaram na campanha. Contra eles, 93%. O resultado os surpreendeu tanto, que no dia mesmo da publicação da pesquisa, ninguém tinha nada a dizer, nenhum comentário, luto fechado.

Foram necessárias 48 horas para encontrar palavras que dessem conta do incompreensível para mentes tucanas dos jardins paulistanos. Depois da ressaca, das doses de uísque para consolar, o jornal sai todo sem graça, buscando razões que a própria razão desconhece, esfarrapadas, para consolar o inconsolável, depressivo e sorumbático chefe que os havia convocado para mais uma batalha serrista.

Pensaram em títulos como:

POVO AINDA NÃO PERCEBE A CRISE.
Ou: DEMAGOGIA LULISTA ESCONDE A CRISE.
Ou ainda POVO BRASILEIRO, IGNORANTE, MERECE LULA E A CRISE.

Ou, como teria sugerido um funcionário casado com uma tucana ou outro, casado com um tucano: FHC: LULA ENGANA OS BRASILEIROS. Subtítulo: Ex-presidente sugere que FSP publique Max Weber em fascículos, embora creia que é biscoito muito fino para a plebe.

Pensaram em declarações da sua galera, como:

Gilmar Mendes: Supremo vai questionar resultado da pesquisa.

Fiesp: Pessimismo empresarial ainda vai vingar.

Gianotti: Leitura de Wittgenstein permite perceber que Lula está condenado pela Lógica.

Assim age um jornal com o rabo preso com os tucanos e, através deles, com a elite branca, milionária, um intelectual orgânico das elites dominantes brasileiras internacionalizadas. Editorial para xingar Lula, carta de leitor indignado com a realidade, um colunista diz que o desgaste de Lula ainda está por vir, não custa esperar, um “intelectual” tucano repete a mesma coisa, um psicanalista diz que o povo gosta de fugir da realidade.

Agora é fazer logo outra pesquisa, quem sabe alguma oscilação no apoio a Lula, quem sabe aumentar a dose do pânico, talvez mandar embora essa equipe de funcionários incompetentes, talvez outra dose de uísque.

Bog do Emir

domingo, 7 de dezembro de 2008

Não quero morrer de amor, quero viver...

Sobre o trovadorismo, também do entre Douro e o Minho, já fiz outra postagem.

PAI GOMEZ CHARINHO

(séc. XIII, 2ª metade)

Muytos dizem com gram coyta d'amor
que querriam morrer e que assy
perderiam coytas, mays eu de mi
quero dizer verdad' a mha senhor:

Queria-me lh' eu mui gram ben querer,
mays non queria por ela morrer,

Com'outros morreron, e que prol ten?
ca, des que morrer, non a veerey,
nen bôo serviço nunca lhi farey;
por end' a senhor que eu quero ben

Queria-me lh' eu mui gram ben querer,
mays non queria por ela morrer,

Com'outros morreron no mundo já,
que depoys nunca poderon servir
as por que morreron, nen lhis pedir
ren, por end'esta que m'estas coitas dá

Queria-me lh' eu mui gram ben querer,
mays non queria por ela morrer,

Ca nunca lhi tan ben posso fazer
serviço morto, como sse vivier.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Um poema que li esta semana que passou. Li em sala de aula, em meio à agitação adolescente. Meus olhos se encheram de lágrimas, as quais tive que conter, estou acostumado. Nunca um aluno percebeu uma dessa marca da emoção profunda. Ou sim, percebeu. Achei mesmo muito bonito o poema, parece comigo.

Mnemosine
(Leda Maria Martins)

Eu não vi quando amanheceu
e não ouvi o canto das lavadeiras
madrugada afora seguindo o rio.
- Eu não estava lá

Eu não vi quando vergaram as árvores
e fecharam os dias
Nem quando recortaram as serras
de antenas elétricas eu vi.
Disseram-me
- Mas eu não estava lá.

A memória da minha ausência
lembra os anciãos nas veredas das noites
luarando cantigas serenas
fazendo sonhar as meninas quase moças.
Eu não ouvi os últimos suspiros
da infanta já feita senhora.
Passam autos velozes pelos calendários
mas nem mesmo quando chegou o primeiro comboio
e que todos se pintaram de novo eu vi.
- Sequer me apresentei.

Eu não estive lá quando queimaram os mortos
e dançaram nas bordas do fogo.
Nem quando se abraçaram ébrios das vitórias
e nas miragens por vir
lavraram novos totens
e os celebraram.

Os barcos soçobraram em labirintos tarde
e eu não estive no vento de nenhuma vela
no marulho de nenhuma vaga.

Eu e a ausência de mim.
Não ter estado nunca em parte alguma.
Não ter feito sequer um gesto de ficar
ou partir.
Não estar simplesmente.
Assim como alguém que ouve bater à porta
uma, duas, infinitas vezes
mas não se mexe, não se levanta,
não faz barulho.

Provérbios gregos