domingo, 31 de agosto de 2008

Um livro - Memórias de uma favorita, Alexandre Dumas






















Li esta semana este livro de Dumas Pai que é uma transcrição de um possível livro de memórias de Emma Lyon, ou Ema Hart ou Lady Hamilton, como ficou mais conhecida por ter sido amante do Almirante Horatio Nelson, personagem e grande herói da marinha britânica. A história narra sua vida, seu nascimento pobre, a mudança para Londres quando ainda adolescente - 12 ou 13 anos - sua entrada no mundo dos espetáculos como atriz, seus romances com homens muito mais velhos, omite o lado mais obscuro de sua vida nos bordéis da época, sua união com William Hamilton, embaixador de Inglaterra na corte de Nápoles, onde se tornou amiga da rainha Maria Carolina (irmã de Maria Antonieta), seu encontro com Nelson, a filha que nasceu dessa união, a vida desregrada e a morte miserável e solitária. Não é nenhuma obra prima, mas é um livro sensível. Dumas escreveu sobre Emma em outro livro que ainda não li e que se chama "San Felice", onde, parece, é um pouco mais 'explícito'. Curioso ela ter o mesmo nome da personagem de Flaubert. Não deixou, enfim, Lady Hamilton de ser uma mulher notável de seu tempo e, de certa forma, um pouco à frente dele. Não é nada fácil para uma mulher bela e pobre não se deixar levar pelas falsas promessas e pela ilusão da própria beleza. Gostei da figura. Não é uma obra prima, como disse, mas vale como registro histórico.

Não achei o ebook, mas há o livro para comprar, usado, aqui.
Há também algumas biografias aqui.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Safo outra vez

Sobre uma virgem

Semelhante à maçã saborosa
toda vermelha no mais alto galho
rorejada de orvalho,
gloriosa;

Não que os colhedores de maçãs a tivessem esquecido,
Ela era inatingível.

Tenho tentado encontrar este fragmento no original mas ainda não fui feliz. Estou resolvendo isso (espero) comprando uma edição americana bilíngue.
Esta tradução (da postagem) é do Jamil Haddad.
De qualquer forma, o fragmento é tão lindo que é impossível qualquer tradução ficar feia. É pena que a Igreja tenha queimado suas obras e de nos ter restado apenas fragmentos. É mais um daqueles crimes dessa triste instituição. Mas deixa isso pra lá.
Uma nova interessante que descobri (que não é tão nova assim) é a descoberta em 1894 de uma poetisa lésbica (aquela que nasce em Lesbos leia-se) contemporânea de Safo. Seu nome é Bilitis. Vou pesquisar mais e depois eu conto. É isso.

domingo, 24 de agosto de 2008

Um livro - Os Miseráveis, Vitor Hugo













Terminei "Os Miseráveis", de Vitor Hugo, nesta madrugada de sábado. Se se pudesse escolher uma palavra e uma imagem que resumisse a obra eu diria que a palavra é MISÉRIA e a imagem é a ilustração de Emily Bayard que se encontra no topo da postagem. Nesta, nos impressiona por demais a garotinha empunhando a vassoura muito maior que ela. As roupas em farrapos, o corpinho pequeno e magro, o olhar ao mesmo tempo assustado, ingênuo, sincero e puro, de quem não compreende que está sendo abusada. Os ombros de fora e o detalhe da alça do vestidinho caindo, ainda revelam a sua condição feminina indefesa, sua sensualidade natural infantil e a imensa ameaça em que ela se encontra. Quem leu o livro sabe das condições em que se desenrolava a cena: ao nascer do dia, o sol ainda nem havia surgido, um frio de 8 ou 10 graus, a garota descalça, a roupa cheia de buracos, nada por baixo; a obrigação de fazer mais do que pode; uma garotinha de 5 ou 6 anos, a solidão e o espanto. A nós pode parecer normal, vimo-las aos montes em nossas favelas. Mas há uma diferença que passa quase despercebida: o frio. A nossa miséria é morna.

Como sempre, não tenho a pretensão aqui de fazer uma análise elaborada do livro. Nem o poderia fazer. Apenas ajudar a divulgá-lo, para que cada vez mais gente possa conhecê-lo e apreciá-lo, mesmo sabendo o custo de se ler um livro deste. Como disse o próprio VH:

"Diminuir o número dos tenebrosos, aumentar o dos luminosos, eis o fi m. Eis porque gritamos: ensino! ciência! Ensinar a ler é acender lume; toda a sílaba soletrada lança faíscas.
No entanto, quem diz luz não diz necessariamente alegria. Sofre-se na luz; o excesso queima. A chama é inimiga da asa. Arder sem cessar, devorar, eis onde está o prodígio do gênio.
Mesmo tendo todos os conhecimentos, mesmo amando, sofrereis sempre. O dia nasce lacrimoso. Os luminosos choram, ainda que não seja senão a sorte dos tenebrosos."














Há o relato histórico dos anos que vão da restauração (1815 - volta da monarquia ao poder após a queda de Napoleão) até aos anos imediatamente posteriores à revolução de 1830, quando da insurreição republicana de junho de 1832 onde transcorre boa parte das ações do terceiro tomo do livro. Esta revolta é o pano de fundo para acontecimentos essenciais no destino de quase todos os personagens da história.
Em torno a esses acontecimentos, VH vai discorrendo a sociedade francesa, suas classes, suas instituições, a igreja, o exército, a monarquia e os aristocratas, os grandes e pequenos burgueses, os estudantes (estes têm uma importância especial até hoje), o povo e, principalmente, a cidade de Paris e seus miseráveis. Da miséria saem os principais personagens. Aqueles que vamos amar e nos emocionar até às lágrimas.















Dos critérios formulados por Aristóteles, em sua arte poética, para se caracterizar uma tragédia, nós, em "Os Miseráveis", de imediato, temos um: Os heróis. De fato, uma heroína e um herói. Quem serão eles? Jean Valjean é o nosso herói. Mas e a heroína, Cosette? Não, Fantine.














Ah, aquelas páginas transcorridas em Montreil-sur-mer após a demissão da fábrica são daquelas páginas da literatura que quem leu
não pode tê-lo feito sem sentir o coração partir...Foi preciso um livro para me dar conta de quão desgraçada e infame é a miséria de um ser humano. E ainda por cima quando se é mulher. A cena da delegacia, Deus meu, é o cúmulo do sofrimento e da frieza humanas. Você que está lendo estas tolas linhas saiba que deverá se preparar para ler esse livro se ainda não o fez, pois não sairá dele igual entrou. Como todo grande livro, este vai te queimar. E essas páginas a que me referi serão apenas as primeiras. Se conseguires passá-las com prazer (se é possível dizer-se isso) e não por obrigação é sinal de que você sabe. De que? não sei. E não importa.
Fantine é a nossa heroína, pois entrou na vida sem saber e saiu sabendo por sua própria vontade. Imaginem uma rosa transformada em excremento, em adubo para a terra, quando ainda é fresca e viçosa. Não sei se exagero, mas se eu fosse Deus, depois dessas páginas, quereria destruir o mundo.

Não há como negar que o que faz desse livro uma obra-prima é a sua capacidade de nos fazer ver como se dá o caminho que uma pessoa percorre até chegar na pior humilhação ou abjeção possíveis. Aqueles homens, mulheres e crianças que vemos se arrastando pelas ruas, em trapos, fétidos, famintos, perdidos, degenerados, desesperançados, tão infelizes que nem se importam com mais nada, solitários, doentes, desamados e desalmados, enfim, aqueles mortos-vivos, um dia, foram iguais a nós. Eles não nasceram assim, se transformaram. Foram moídos e triturados pela máquina da mesquinhez e usura humanas de que fazemos parte. É impressionante.














A cena da criança raquítica indo buscar água no fundo da floresta escura, com um balde quase de seu tamanho, apavorada, sem saber se temia mais o escuro e ruídos da floresta ou a perversa madrasta, se arrastando com o balde, parando a cada quatro passos para descansar e imediatamente continuando, tão pequena, tão indefesa, tão sozinha, Deus do céu, é de fazer chorar. E eu chorei é claro, sou sentimental.





















Mas Jean Valjean é o nosso herói. É ele que, ao longo do livro e, principalmente, em seu final, vai nos fazer sentir alguma esperança na espécie humana. Jean Valjean me fez sentir como uma barata. Eu não sigo nenhuma religião, mas se Jesus não tivesse existido, como se iria explicar Jean Valjean? Não por causa da religião (mas por causa também), mas por ser ele, nosso herói, tão sublime quanto o Cristo. JV se achava culpado. Mas ele não era. Acho que Vitor Hugo também o achara culpado. Mas não era não. Dezenove anos na prisão por roubar um pão. Que coisa este planeta terra, que coisa...Jean Valjean se achava culpado e por isso queria espiar seu crime. Não sei se Dostoievsky escreveu seu "O Idiota" antes de "Os Miseráveis", mas se eu pensar bem, e sentir bem, Jean Valjean era mais belo que o Príncipe Mishkin. Não sei se pode haver a comparação. Talvez seja uma bobagem, mas eis aí o Gigante.

Há o santo e o monstro obtuso, que só é monstro porque é obtuso: Javert. Jean Valjean pirou a cabeça de Javert. Javert não podia entender o amor e soube, em um momento de grandeza, reconhecer isso. Javert foi um monstro útil. O Bispo Bem-vindo era o santo, o catalizador, a substância que adicionada, muda a matéria.













Há também três personagens que aparecem por instantes. São os quatro filhos dos Thenardier: Gavroche, a bela rosa mísera Eponine e mais os dois pequenos. Me lembraram um garoto que conheci nos tempos em que trabalhei como educador social pelas ruas de Belo Horizonte. Formávamos uma equipe de abordagem de rua e saíamos todos os dias bem cedo para visitar os buracos em que as crianças e jovens de rua se escondiam para dormir. O local era a região da estação central de trens, entre os viadutos da Floresta e de Santa Tereza. Mas esse garoto, de quem não me recordo o nome, não o encontramos ali não. Foi na região do Minas Shopping, em uma garagem de ônibus, destes que fazem as linhas intermunicipais. O menino dormia dentro daquele buraco onde se para o veículo em cima para a manutenção. Ele dormia em cima de um papelão, sem coberta alguma, só com os trapos que vestia, entre restos de comida, graxa e uma ratazana morta. Nunca me esquecerei dessa cena. Convencemo-lo a nos seguir até a sede. O menino, sua aparência, era terrível. Macilento, de sua boca, quando falava, saia já um odor de morte. Era um cheiro de podridão, como se ele estivesse se desfazendo por dentro. Levei-o, já na sede, para uma mesa onde coloquei em cima um pacote dessas massas de modelar coloridas. Ele observou mas não fez nada. Comecei então a mostrar-lhe o que era e para que servia. Ele sorriu, espantado; nunca havia visto tal brinquedo. Suas mãozinhas não conseguiam manipular a massa, não tinham força nem coordenação. Eu não estava mais conseguindo lidar com aquilo. Olhei para o chefe, desesperado. Não pude dar conta daquilo. Ele entendeu, disse-me para ir embora e ficou com a criança. Depois soube que ele havia se evadido do albergue para onde foi levado. Aquele menino não durava um mês. Nunca mais soube dele. Saí daquele trabalho pouco tempo depois. Confesso, ter estômago era difícil, mas o mais difícil era ver que nada daquilo funcionava. O estado fingia que fazia. Os perdidos eram perdidos mesmo. Sei lá.
Aquelas crianças Thenardier me lembraram desse caso.














Mas o homem que era um Gigante e que se achava um nada, é desse a raça que vai salvar a humanidade com o exemplo. Na cena final, quando de sua morte, onde se lê:

"Tinha-se encostado para trás; a luz dos dois castiçais iluminavam-no; o seu rosto descorado olhava para o céu, e deixava Cosette e Marius cobrir-lhe as mãos de beijos; estava morto.
A noite não tinha estrelas, e era profundamente escura. Sem dúvida, no meio da sombra, estava de pé algum anjo imenso, de asas abertas, esperando a alma."














Bem, mui humildemente vou discordar de Vitor Hugo. Não era um anjo imenso. Eram muitos anjos. Se eram imensos não sei. Mas, com certeza, se vale a pena se falar de tamanho, eram todos menores que ele.

Ebook

Compre o livro


Obs. Trabalhar com muitas imagens no blogger é foda. Ridículo, mas necessário.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Agradáveis exames






















Tenho estado às voltas com exames. Não aqueles dos colégios, mas os outros, dos laboratórios. Hoje fui tirar sangue, coisa que adoro. Adoro tanto que venho pensando sobre isso há vários dias. Pois bem, chegando lá, cedo, no laboratório que sempre vou, pois confio, apresentei os papéis e aguardei. Tirei o livro que estou lendo, pois o levei para, durante a espera, ter no que pensar que não fosse a minha iminente perda de sangue.
Para mim, o sangue não é só aquele líquido vermelho e viscoso que vemos a escorrer de nossos cortes e ferimentos. Há um outro sangue (ou outros) que acompanha o primeiro em outro plano, e que é responsável pela vivificação dos outros corpos mais sutis que possuímos tal como é a minha crença.
Pois bem, comecei a ler o livro, mas não consegui prestar a atenção necessária ao ato da leitura. Então guardei-o. Resolvi então escandir uns versos que estou preparando para um trabalho lá da escola. Aí funcionou. Estava escandindo o décimo verso quando me chamaram. Como ADORO tirar sangue estava até tranqüilo. A moça que ia fazer o serviço olhou-me como se numa prática habitual de examinar o paciente para decodificá-lo e saber se teria ou não problemas. Percebi que ela percebeu que eu não lidava muito bem com aquilo. Conduziu-me ao local da sangria (onde havia outros sendo sangrados), convidou-me a guardar minhas coisas e sentar, perguntando-me em seguida em qual braço queria eu tomar a picada. Ofereci o direito pois já havia pensado nisso antes e concluído que este era o que haveria de se portar melhor na operação. Ela examinou o braço e pediu-me o esquerdo. Protestei mas ela me disse que tinha que examinar os dois. Mentira, pois acabou atacando o braço esquerdo que era o que eu não queria.
Antes, porém, perguntei-lhe quantos tubos ela iria tirar. Disse-me que dois. Aliviei. Falei-lhe que dois era um número bom pois mais do que isso correríamos perigo. Ela riu e me tranqüilizou o quanto pôde.
Começou a operação e fiquei prestando atenção a meu corpo. Percebi que o primeiro tubo já havia ido; não estava olhando é claro. Quando iniciou-se o preenchimento do segundo tubo comecei a sentir uma espécie de desprendimento do corpo. Era o sinal que iria passar mal. Pensei: Muita calma nessa hora. Iniciou-se em seguida uma sensação de ânsia de vômito com sede. Comecei a rezar para aquilo acabar logo - tudo durou a espantosa eternidade de quarenta segundos. Aí senti que ela tirava a agulha e quase fiquei feliz com o fim do procedimento. (não era humanamente possível estar-se feliz em um lugar como aquele, não é?)
Ela, durante a intervenção, foi toda gentil e eu a amei por isso.
Ao terminar, perguntou-me se estava bem e eu disse que sim e que só sentia muita sede. Foi buscar água. Quando voltou perguntou se eu estava com ânsia de vômito ( a danada conhecia até minh'alma pelo visto) porque se bebesse a água nessas condições iria fatalmente vomitar. Dei só um golinho.
Eu estava bem. Um tanto tonto apenas. Atentei que se houvesse mais um ou dois tubos, teria mesmo passado mal, o que significa (podem rir) desmaiar.
Levantei - ela sempre gentil indagando se estava tudo bem e eu dizendo que sim - peguei minhas coisas, me dirigi ao local onde havia um lanche esperando por mim e aí comi quatro deliciosos pedaços de um excelente bolo de banana, além de dois também agradabilíssimos cafezinhos.
Então me despedi da moça - seu nome era Luciana - e parti.
Não adianta, tenho pavor de tirar sangue. Podem tirar onda se quiserem, mas garanto que, diferente de vocês, não dou a mínima ao motorzinho do dentista.

sábado, 16 de agosto de 2008

A bela Safo
















Outra tradução que faço
da divina Safo.

O grego não rima a poesia. O jogo se faz pelas sílabas longas e breves, que não fazem sentido em português. Daí me permiti rimar os versos.
O título também é meu, já que o original só traz o número 2 do fragmento.

As mulheres entendem perfeitamente.

Ode a uma donzela

Parece a mim que semelhante aos Deuses
é aquele homem que ante ti se senta
e perto então de ti a tudo atenta
no quanto dizes

e em tua graça. E tal que se desnuda
o coração que me estremece ao peito,
pois o instante em ver de ti tal jeito
quedou-me muda.

Se finda enfim calou-me a língua ao fundo,
já um grácil fogo à pele irrompe e a(s)cende,
e os olhos turvos, sons que não se entende:
tudo confundo.

Ah! o suor escorre e é também fremente
o corpo todo; e a palidez me toma
[e tal à seca relva a morte assoma],
de tão carente.

E [inda pobre], corajosa em tudo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Frei Beto e as origens da civilização patriarcal






















Os meus inúmeros leitores sabem da minha simpatia pela igreja católica. Igual a zero vírgula qualquer coisa. Embora o frei Beto se utilize da Bíbria para justificar as suas críticas à sociedade patriarcal, não deixa ele de fazê-las, as quais são muito bem vindas, quanto mais sendo de um frei católico utilizando a Bíbria para falar mal -sem o saber - da própria Bíbria, que é a sumidade literária do patriarcalismo planetário. Quer livro mais patriarcalista que esse? Nela até se pode dizer: _ Até tu Jesus?

Frei Betto *


Adital

A natureza obedece a ciclos repetitivos: estações do ano, fases da Lua, movimento da Terra em torno do Sol etc. Na agricultura, a seqüência inelutável de semear, nascer, brotar, frutificar e morrer. Não por acaso os antigos reforçavam o patriarcalismo associando a mulher à terra na qual o homem "planta" a semente (daí "sêmen") da vida. Ele portava a vida em potencial, como o camponês guarda consigo as sementes. Ela atuava como mero receptáculo, vaso no qual a semente germina.

A dissociação entre ser humano e natureza advém do aparecimento da cidade, surgida por volta de 3500 a.C. Já não são os humanos que se adequam à natureza. A relação se inverte. Os humanos criam para si um espaço, o urbano, separado do rural. E deixam de ser mero mantenedores dos ciclos reprodutivos da natureza, para se tornarem produtores, inventores, artífices.

Rompe-se o equilíbrio ecológico. Os humanos se emancipam, submetem a natureza às suas exigências e projetos. O corte é muito bem simbolizado no episódio da torre de Babel (Gênesis 11, 1-9), jóia literária em menos de dez versículos.

Segundo o autor bíblico, após o Dilúvio "todos se serviam da mesma língua e das mesmas palavras". Não havia diversidade de enfoques e opiniões. O ponto de vista de um, o poderoso, era o de todos. E a atividade agropastoril igualava as pessoas.

O advento das cidades-Estado provoca um movimento migratório do campo para a urbe, representada no relato bíblico pela "terra de Senaar". Ali os humanos decidem "construir uma cidade" - a Babilônia, que significa "porta do deus" - com "tijolo que lhes serve de pedra e o piche de argamassa". (A Babilônia era a capital da Mesopotâmia, atual Iraque).

A revolução tecnológica representada pelo tijolo (insuperado até hoje) imprime aos humanos a consciência de que não estão mais condicionados pela natureza. A relação se inverte. Agora é o ser humano que condiciona a natureza. Transforma-a em artefato, cultura, faz do barro cozido a nova pedra e do piche, a argamassa.

Tais avanços enchem os humanos de orgulho. Não satisfeitos de "construir a cidade", decidem abrir a "porta do deus", ou seja, erguer "uma torre cujo ápice penetre nos céus". Aqui o relato expressa duas ambições, a de edificar uma montanha artificial (a torre), repositório da divindade, e a de "penetrar nos céus", quebrar o limite entre o humano e o divino, o profano e o sagrado, a Terra e o Céu. Já não é a divindade que desce à Terra, é o ser humano que invade o Céu graças à obra de suas mãos.

Toda essa sabedoria explica a arrogância decorrente, ainda hoje, de avanços científicos e tecnológicos. Queremos ser deuses. E agora, como nunca, ansiamos pela imortalidade, como Gilgamés, a primeira figura urbana da história, rei da cidade-Estado de Uruk, na Mesopotâmia, no terceiro milênio a.C. Fortunas são consumidas neste sonho: resfriamento de embriões e cadáveres, clonagem, cirurgia plástica, terapias de rejuvenescimento, drágeas em quantidade, exercícios físicos, dietas para todos os gostos, equipamentos miraculosos, livros de auto-ajuda etc. Tudo para nos livrar da velhice e permitir que desfrutemos, para sempre, de uma vida saudável… Morrer tornou-se acidente de percurso.

O versículo 4 registra as propostas de construção da cidade e da torre, e destaca o principal motivo de tal empreitada: "para ficarmos famosos e não nos dispersarmos pela face da Terra". Não se tratava de obter felicidade, bem-estar, bênçãos divinas. Importava a fama, possuir um nome sobreposto aos demais, e ficar segregado, seguro.

A fama nem sempre traz felicidade e a segurança, liberdade. Quanto mais famosa a pessoa, maiores os cuidados de segurança para evitar assédio e risco. Pelo fato de atrair dinheiro e poder, a fama é uma das mais sedutoras tentações. Pode-se obtê-la também pela via do poder, mas nem sempre através da riqueza, exceto se houver ostentação.

Babel é semantema de Babilônia. Deriva da raiz hebraica "bil", que significa "confundir". Narra o texto bíblico que Javé, ao observar Babel, convenceu-se de que os humanos se fechavam em seus próprios e ambiciosos projetos, deixando de acolher os desígnios divinos. "Isso é o começo de suas iniciativas!" - disse o Senhor. "Agora nenhum projeto será irrealizável para eles".


* Frei dominicano. Escritor

www.adital.com.br


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pequim 2008 e a educação no Brasil

Há, como sabemos, uma podridão por trás disso:
Brasil em 39º lugar. Atrás de Tailândia, Zimbabwe, Argélia, Cazaquistão, Colômbia, Mongólia, Eslovênia, Turquia, Vietnã, Armênia e, não sabia que existia, o Quirquistão.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Outra homenagem à Clara

















Fiz vários desenhos homenageando os Orixás. Alguns, não todos. Um dos que faltaram foi Ogum. Mas Clara era filha de Ogum e Iansã. E esta eu tenho aqui. E como dizias na música, quem sabe não és hoje, no céu, uma parte dos olhos de Iansã.

Ps. clique na imagem para ampliá-la. Dá um excelente papel de parede.

A Clara

















Hoje faria 65 anos. Deixou muita saudade. Se queres saber algo mais sobre a Clara, tens aqui.


Clara Nunes - Clara Nunes - Conto de areia - Cigana Luiza



Clara Nunes - Clara Nunes - Feira de Mangaio - Cigana Luiza



clara nunes - A Deusa dos Orixas(yansã cadê ogum)

domingo, 10 de agosto de 2008

Um anuncio

Todo final de tarde estabelece-se a rede de bem-te-vis.
Uma trama complexa e dinâmica.
Eles vêm e vão constantemente
entre as árvores daquela minha circunscrição.
Sempre se comunicando numa intrincada cadeia
de Bentiiviis! e Bintiviiis! Beeeeentiiivis!
e Beennnntivis! e outras palavras beentivínicas.
Eu gosto de ouvi-los,
eles e elas bem-te-vis
encerram o dia com dignidade e sabedoria.
Orquestram entre si o desenrolar da noite e,
depois, quedam-se em silêncio gentil.
Seus volteios circunflexos e gritos briguentos
são de qualquer coisa de vida de ver.
Boas tardes de domingos, enquanto
os escafandros pendurados
em estratégicos lugares
de algum museu no sul de Minas,
projetam, entre sombras
da árvore frutífera em seu redor,
os contornos frios, sombrios propriamente,
que, no fundo letras – como a linha preta
sobre a branca mancha do papel – nos
lançam as imagens aos sonhos, às quimeras...
Confusão.
Nada há mais difícil que as palavras.
As bem-te-vis acalmam o embate do dia.
O lusco-fusco,
gentilmente convidado por elas,
instaura as suas cores.
Os cinzas chamados são a prevalecer.
Mais uma noite se anuncia...
As letras perdem espaço aos sentidos.
Não se assustem, o amor, mais uma vez, reclama o seu trono.



Tudo besteira.

8.8.8

O esotérico dia 08.08.08 não passou em vão. Logo pela manhã, abrindo o navegador, resolvi checar o diário oficial do município. Faço isso já por hábito. E eis que está lá o meu nome bonitinho: saiu a nomeação para a prefeitura de BH. Logo eu que estou de saco cheio dessa PORRA de magistério. Mas não pude deixar de pensar que, afinal, foi uma vitória. E minha vida vai mudar; ainda que permaneça, de certa forma, igual ao que era antes. Ou seja, a mesma bosta de sala de aula. E o pior é que agora são dois cargos públicos. Estou cada vez mais agarrado nisso. Me deu medo. Decidi, no entanto, durante o fim de semana, não pensar. Amanhã vou conquistar o mundo, hoje, só uma cervejinha que é pra relaxar.

Um livro - Madame Bovary - Gustave Flaubert

Tendo terminado semana passada "O Idiota", de Dostoiévsky, e um outro livro menor (Maria Antonieta - a última rainha de França de Evelyne Lever), renovei a leitura na biblioteca pública e trouxe o primeiro volume d' "Os miseráveis" de Victor Hugo - do qual até hoje somente li "Os trabalhadores do mar" - e o "Madame Bovary" do Flaubert. Foi este que li primeiro. Para mim, o livro esteve longe de tocar-me quanto quaisquer dos de Dostoiévsky. Não se pode dizer, no entanto, que se trata de um livro ruim. Muito pelo contrário, é um livro complexo, não sendo à toa um clássico. O romance, considerado o marco da literatura realista, surgida em meados do século XIX, causou um enorme furor à época, sendo Flaubert inclusive levado aos tribunais por obcenidade e heresia (desrespeito pela igreja católica). E se lembrar que, poucos anos antes, os próprios tribunais franceses haviam mandado para a guilhotina uma quantidade considerável de religiosos católicos, entre muitos padres e freiras...
Mas o livro de Flaubert desenvolve 'aparentemente' o tema do adultério feminino. É em torno à figura de Emma Bovary que se dá a história, que já é bem conhecida e sobre a qual muito também já se falou. Emma é uma personagem que rompe as amarras que confinam - ainda? - as mulheres a viver como boas esposas, caseiras, apáticas, previsíveis. Não que ela o faça como Antígona, que também rompe uma ordem estabelecida. Mas esta rompe uma ordem maior e ainda o fez como mulher, o que faz sua ação maior ainda. Antígona sabia o que queria, tinha consciência de que atacava uma instituição poderosa e de que as consequências seriam terríveis. Como o foram.
Mas Emma não está interessada em romper as amarras da sociedade burguesa-católica-hipócrita de sua época. Emma queria apenas sonhar. Este foi o seu crime. Querer sonhar seus sonhos de mulher, seus sonhos de romance, seus sonhos de príncipes e de princesas. Ela queria ser uma princesa e ser salva por um príncipe da sua vida monótona e medíocre. Emma imagina que casando com Charles encontraria esse sonho de amor, mas Charles não era um príncipe. Na verdade ele jamais seria mais do que um sapo. Ou um boi como o próprio nome já revela. Uma criatura tão inerte e lenta como um bovino.
Pode-se ver no romance como que uma crítica à ainda jovem 'cultura de massa' que nascia por aqueles tempos. Mass mídia representada pelos romances de folhetins muito difundidos então. Emma os devorava. Aquele mundo de fantasia, de amores possíveis, de festas, lindas mulheres e másculos homens, de vestidos extraordinários, de bailes e carruagens, de beijos e contatos imediatos transtornou as idéias da pobre Emma.
Mas ela não é tão vítima assim. Ela fez suas escolhas. E embora insegura do que fazia (daí não ser ela uma heroína como Antígona), sabia que corria um grande perigo com suas escapadas noturnas ao jardim para encontrar Rudolphe, ou em suas falsas viagens à Ruon para lições de piano, quando só fazia era passar dias e noites inteiras na cama com León.
A crítica social é constante no romance. O realismo transparece na exposição dos mecanismos de controle social feito pela igreja e pelos ideais pós-revolucionários que davam ao homem (não à mulher) a liberdade e a possibilidade de ascensão, tendo como meios somente seu talento e esforço pessoal. Ainda que em parte seja verdade, esses méritos pessoais ainda não são o suficiente para a ascensão. Os diversos centros de poder têm que ser constantemente consultados e por estes aprovados.
Não posso aqui fazer uma análise maior do livro. Nem tenho competência para tanto. Mas duas coisas chamaram-me a atenção no romance. Quais sejam:
1- Não tendo a mulher, ainda, a possibilidade de uma ascensão pessoal na sociedade a partir de seus talentos pessoais, tinha ela, no entanto, a possibilidade (que não tinha antes) de casar por amor. Os casamentos arranjados, embora ainda existissem, estavam em desuso; os pais já então procuravam respeitar os sentimentos das filhas, ainda que não deixando de valorizar o patrimônio do pretendente.
Não fica claro o porque de Emma ter se casado com Charles. Não me pareceu que houvesse amor da parte dela. Ficou-me a impressão de que, talvez, ela já estivesse ficando velha demais para uma moça de província - onde os partidos masculinos eram mais escassos - e Charles representasse aquela figura com potencial de ascensão em sua carreira de médico. Mas o que notei foi, novamente, aquele personagem feminino que anseia por sua expansão, por expressar o que é próprio de sua natureza, a imaginação, o amor, o sonho, o proibido em fim. E a sua total aniquilação por seu - ainda que titubeante - atrevimento em romper com as amarras do patriarcalismo representadas na figura do burguês e do padre. Este foi o seu verdadeiro "crime". Flaubert, no fim de sua vida, mostrou que ele próprio não compreendeu a personagem que criou, se fazendo de juiz, vestindo a couraça patriarcal e reclamando que a "prostituta Emma" ficava e ele partia. Emma, nos momentos que agiu como puta, como por exemplo quando pousa a mão sobre a perna do agiota na tentativa de convencê-lo a prorrogar-lhe a dívida, só o fez porque à mulher não restava nada a não ser utilizar-se de suas qualidades pessoais de doadora do amor e da beleza. A santa e a puta são os dois lados da mesma moeda. Para bom entendedor...
2- Em segundo lugar, o que realmente me fascinou no livro, foi o seu erotismo. A mim, excitou-me (fisicamente mesmo moras?) em várias passagens. Não há, em todo o romance, nenhuma descrição do corpo nu, nem narração de uma cena sexual. Tudo consegue Flaubert com as elipses, com as sugestões. A cena da carruagem é mais erótica do qualquer cena de sexo que se vê nos filmes atuais. Entendi o porque do livro ter causado tanto alarde. O recurso da sugestão era largamente usado pelos escritores franceses do século XIX. Para os poucos que leram "As memórias de um médico" de Dumas Pai, se recordarão da passagem do "Colar da Rainha" onde Maria Antonieta fica mais de uma hora sozinha com Charny dentro da casa de banhos dos jardins do Trianon. Dumas apenas sugere o encontro amoroso que culmina no ato sexual. Apenas deixando o leitor tirar suas próprias conclusões do que poderia ter acontecido naquela uma hora em que os dois ficaram sós. Mas em Flaubert a sugestão não se lança só aos pensamentos do leitor, lança-se aos seus sentidos, como a já citada cena da carruagem que, começando às onze horas da manhã:

"E, no cais, entre fardos e barricas, nas ruas, parados às portas, os burgueses abriam muito os olhos, ante aquela coisa extraordinária na província: uma carruagem, com as cortinas descidas, e que reaparecia continuamente, mais fechada que um túmulo e balouçando como se fosse um navio.
A certa altura, no meio do dia, em pleno campo, quando o sol dardejava com maior intensidade contra as velhas lanternas prateadas, uma mão nua saiu por entre as cortinas de pano amarelo e jogou pedacinhos de papel, que se dispersaram ao vento e foram cair mais longe, como borboletas brancas, num campo de trevos vermelhos, todo em flor.
Afinal, lá pelas seis horas, a carruagem parou numa viela do bairro Beauvoisine e desceu dela uma mulher, que se foi, com o véu baixo, sem olhar para trás."

Cenas como esta aparecem algumas vezes pelo livro - como a da feira rural que é, sem dúvida, cinematográfica - e contribuem muito para que o romance tenha sido considerado como o primeiro da literatura realista.
Nos capítulos finais, quando da agonia e morte de Emma, o farmacéutico e o médico de fora, presentes no quarto, não se fazem de rogados em discutir política e economia sem se importarem com o sofrimento que se derramava ao seu redor. Nessa cena, a morte não recebe nenhum tratamento romantizado, não há glória alguma, apenas uma morte a mais, comum, em um lugar comum, de uma pessoa comum. A vida segue em frente.
Apesar do título e do miolo todo do enredo girar em torno à Emma Bovary, chama a atenção ter Flaubert começado e terminado-o com o personagem de Charles. Confesso que ainda não entendi isso.

Como todo grande livro, saber-se a história antecipadamente nenhuma diferença faz.

Tout en monde c'est une peine.

Ps. Assisti o filme de Claude Chabrol e gostei. Especialmente dos olhos a todo instante marejados de Izabelle Huppert.

Aqui o ebook, em português, da mesma edição da Abril cultural que li. Clique na imagem, que tirei de uma edição inglesa.

sábado, 9 de agosto de 2008

Enquanto isso, em algum lugar...






































































Eles estão experimentando suas máquinas. Para que elas não se enferrugem por falta de uso, não é mesmo? E também para os pobres fabricantes dessas mesmas máquinas poderem continuar a vendê-las, não é mesmo? O mercado não pode parar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Lindoca













A lindoca aí acima, o jornalista (?) Diogro Mainardi, se deu mal mais uma vez. Foi condenado por danos morais ao (este sim) jornalista Paulo Henrique Amorim, que mesmo sendo um pouco exagerado - o que o torna até engraçado - é um cidadão a quem respeito muito. Sempre visito a sua página e mantenho um link aqui no blog para ela. Mas o Diogro, em outra ocasião, também foi condenado (ele e a editora abril para quem trabalha) a pagar uma vultosa quantia pelos mesmos danos morais ao jornalista Mino Carta que, infelizmente, encerrou o seu blog na internet. Está precisando voltar Mino, está fazendo falta! Mas, daquela vez, o Lindoca ficou, em uma gravação em áudio, berrando em sua página da revista veja que o Mino "era um macaco". Ele ficou puto da vida, ahahahahahaha. Será que vai chamar o PHA de que hein?

“A 5ª. Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo acatou, por unanimidade, o relatório do Desembargador Oldemar Azevedo e deu provimento a recurso de Paulo Henrique Amorim para condenar a Editora Abril e Diogo Mainardi ao pagamento de 500 salários mínimos (R$ 207.500, 00), ao reconhecer a ocorrência de danos morais quando da publicação (em 6 de setembro de 2006) da coluna “A Voz do PT”, na revista Veja. A Câmara considerou que houve ‘abuso da liberdade de imprensa’. A Câmara confirmou que as contestações oferecidas eram inexistentes por falta de procuração. Cabe recurso ao STJ.”

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Se pensar sentindo



Há anos atrás, lendo um livro chamado "Nova Consciência" do jornalista Luis Carlos Maciel, livro este há muito fora de catálogo, deparei-me com isto:

"O obscurimento do mundo não atinge nunca a luz do ser. Nós chegamos demasiado tarde para os deuses e demasiado cedo para o Ser;
deste, homens e mulheres são poemas começados."

"Dirigir-se para uma estrela, apenas isto. Pensar é a limitação a um pensamento que em algum tempo, como uma estrela no céu do mundo, permanece fixo."

Martin Heidegger
In (Sobre a Experiência do Pensar)

Resolvi, onde há o itálico, mudar a frase. No original: (o homem é poema começado).

Cá com meus botões, ainda que não fosse o que queria o Heidegger, essa estrela não é nada mais que o coração. Não gosto ou simplesmente não tenho competência para entender filosofia. Não tenho saco, para ser direto e vulgar. Mas, não se pode pensar sem se sentir ao mesmo tempo. Pelo menos para mim. Então, essa estrela, essa metáfora, é o correspondente sensível do pensamento. Mais uma vez esses pares da dualidade... Aí, se é preciso tomar cuidado para não privilegiar o pensamento. Era necessário criar-se um conceito para isso: pesentir, o pesentimento (não confundir com presentimento pois não tem nada a ver), ou mesmo, quem sabe, buscar lá nos radicais gregos ou latinos.
Ou talvez, como as duas fórmulas se encontravam lado a lado no livro, cada uma sozinha em uma página, seja apenas o Ser (humano?).
O Ser é se pensar sentindo?

Duas horas da manhã

















Ele acordou às duas horas da madrugada. Sentiu necessidade de urinar. Levantou-se, não sem uma certa coragem, pois havia chovido durante a noite e fazia frio. Voltou do banheiro, meteu-se embaixo do cobertor, mas não conseguia dormir. Viu o irmão chegar quase às três e pensou em como ia ser difícil para ele mudar os velhos hábitos agora que se tornara um dos nossos mais novos servidores públicos. Ficou ali pensando em como não havia ido à escola na noite passada. Afora o problema da motocicleta e do frio, havia a sua já total incapacidade de entrar em uma sala de aula. Não tinha nada mais para dizer àquelas pessoas. Não queria seduzir, nem convencer ninguém de mais nada. Não queria mais ouvir risinhos sarcásticos quando falava das coisas da arte, das únicas coisas, a seu ver, que valiam a não extinção da humanidade degenerada e perdida que nós somos. Mas eles não se interessavam. Faziam as coisas por obrigação. Não eram estudantes, apenas corpos presentes. Não havia um só que se interessasse por leitura. Machado de Assis, muito conhecido escritor, um exemplo, nem gostava muito, e alguém dizia: É um músico famoso. Por Deus, dizia, é assim. Não conseguia mais aturar aquilo. Havia ainda as ameaças, os olhares intimidadores, os cochichos. Ficou pensando em que fazer. Para onde ir. A que mais seria capaz de se dedicar para conseguir o malfadado dinheiro. Não encontrou resposta alguma. As horas foram passando. O dia amanhecia. Sentia um cansaço muito grande. Foi ao banheiro de novo. A chuva havia parado. Pensou que ia adiar para a tarde a oficina. Pensou nos livros que acabara de ler. As histórias tristes. Não sabia se estava triste por causa das histórias ou se, por estar triste, as procurava. Bobagem. Sabia o quanto era melancólico. Gostava da sua melancolia. Mas, no entanto, sabia também que aquilo tudo já estava indo longe demais. Pensava a quanto tempo não amava. Quase não mais saia de casa. Andava bebendo muito. Algumas mulheres, na rua, ainda olhavam para ele. A idade não era o problema. Mas não sentia aquelas mulheres mulheres. Ah, sim, a aparência. Aqui, em sua cidade, aparentemente belas as havia aos milhares. Bem vestidas, bem cuidadas, com suas curvas sinuosas reveladas pelos jeans apertados. Os umbigos de fora. Os seios querendo se mostrar pelos decotes. Mas, olhava em seus olhos e não havia mistério ali. Jogos sim. Não conseguia mais, como na juventude, se interessar apenas por esses corpos. Queria o mistério no olhar. Assim, nesses pensamentos, com o dia amanhecendo, adormeceu novamente. Sonhou então: A moça disse - vinte e cinco de março, é o meu aniversário, é touro não é isso, não tenho certeza - Ele disse - Acho que é áries, o primeiro signo do ano astrológico. Áries é cabeçudo - Ela riu - Estavam então já em outro lugar. Havia pessoas muitas andando de um lado ao outro. Ela estava a seu lado. Ele olhava para as suas mãos e sentia um desejo enorme de tocá-las. Ela percebia e ria. Mas não de maldade. De repente já não havia mais ninguém. Ela tocou-lhe o ombro e chamou-o - Vamos, acabou. Ele a seguiu. Ele sabia que ela era um sonho, mas ainda assim, a amou.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Orixás - Exu Rei

















Uma aquarela de 2004. Sobre papel kraft. Os entendidos vão dizer que não vai durar é nada.
Danem-se os entendidos!

domingo, 3 de agosto de 2008

Um livro - O Idiota, Fédor Dostoiévsky






















Acabei de ler O Idiota, de Dostoiévsky - ed. 34, tradução de Paulo Bezerra, direta do russo. É um livro que entrou para aquela minha galeria de livros terríveis. Esse tipo de livro, geralmente, me obriga a uma leitura compulsiva e sem pausas. No entanto, tive de interrompê-lo no final da segunda parte por cansaço, mas principalmente, para me permitir uma digestão do volume de sensações e imagens que o romance traz. Há muita coisa nesse livro.
Os livros terríveis são aqueles que me jogam a alma no desassossego e em um sentimento de angústia e de solidão. Mas também me colocam em contato com a sublimidade da vida.
É o quinto livro que leio de Dostoiévsky, sendo o primeiro “Humilhados e Ofendidos” - que é o que mais gostava até ontem – depois “O Jogador”, seguidos por “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamázov”. Todos terríveis.
A história de “O Idiota” gira em torno de dois dentre os mais fascinantes personagens que já vi: o bom e puro príncipe Míchkin e a irremediavelmente perdida e cindida Nastácia Filíppovna. No final do livro, Dostoiévsky, com sua pena mágica, nos apresenta uma cena que, confesso, talvez seja a principal razão de meu desassossego. Cena trágica, terrível e de difícil assimilação.
“O Idiota” é, seguramente, um daqueles livros que, se a vida o permitir, deve-se ler várias vezes.

Há um ebook na internet, em português, da tradução de José Geraldo Vieira, em PDF aqui.
Ou aqui em DOC.
Ou compre o livro.

Um exemplo trágico, mas belo. Magnífico, mas triste. A mulher cindida, a santa e a puta. Talvez o único sentido desse livro seja por si mesmo. Talvez os dramas e tragédias dessa vida só sirvam mesmo para isso, para se fazer arte. Se há algum outro sentido em tudo isso, alguém mo diga. Se não fosse assim, melhor seria jogar livros como esse fora. E como teria Michkin dito: A beleza salvará o mundo.

O idiota

"- Quem manda aqui ainda sou eu. Se me der na veneta ainda o ponho para fora aos pontapés! E ainda está com o dinheiro, hein? Tire a mão desse embrulho aí em cima da mesa. Dê-mo. Neste pacote tem mesmo cem mil rublos? Credo que embrulho horrendo! Mas que é que tu queres, Dária Aleksiéievna? Achavas então que eu deveria me casar com o outro. com o príncipe? (Apontava para Míchkin.) Querias que eu me arruinasse com ele? O coitado necessita é de uma aia! Como pode ele casar? Ali o general bem podia ser a ama dele. Repara: não o quer largar. Olhe, príncipe, eu, sua ex-noiva, agarrei o dinheiro. Sou ou não sou uma mulher ordinária? E era com uma mulher assim, príncipe, que desejava casar? Mas... que é isso? Está... chorando?! Ficou triste? Ora, ria como eu.
- E ao dar este conselho não pôde Nastássia Filíppovna evitar que duas grandes lágrimas lhe deslizassem pelo rosto abaixo. - Confie no tempo, que tudo faz passar. É preferível refletir dobrado agora do que mais tarde sem parar... Mas vocês todos deram agora para chorar? Pois não que Kátia também está chorando? Que é isso, Kátia? Vou deixar um presente para você e outro para Pácha. Não pensem que me esqueço de vocês, não. E agora, Kátia, volte para os seus. Fiz uma rapariga honesta como você perder o seu tempo com uma mulher ordinária como eu... Pois, príncipe, a falar verdade, é melhor assim, muito melhor. Mais tarde se arrependeria, príncipe, e não seríamos felizes. Não adianta jurar; sei que me desprezaria! E como tudo viria a ser estúpido, depois... Não, mais vale nos separarmos como amigos, pois não daria certo. Teria sido um sonho, nada mais. Não sonhei eu com príncipe? Claro que sonhei! Sim, sonhei, há muito tempo, quando morei solitária durante cinco anos, naquela casa de campo em plena estepe. Outra coisa não fazia eu senão pensar e sonhar... sonhar e pensar. Imaginava sempre alguém como o meu bondoso Príncipe Míchkin, correto e direito, e ao mesmo tempo tão ingênuo que não cessaria de proclamar diante de toda gente: “Por que censurar-te, Nastássia FiLíppovna? Em quê? Por quê? Eu... que te adoro!” Era hábito meu devanear assim. E tanto, tanto... que, quase perdi o juízo. E eis que vinha sempre aquele homem, quedava-se dois meses por ano, e me trazia o quê? Vergonha, desonra corrupção, degradação, posto o que, se ia embora. Como podia eu suportar aquilo? Milhares de vezes me vinha a tentação de me atirar na represa: mas tão pobre criatura era eu que nem coragem para isso me sobrava... Mas agora... Rogójin, você está pronto. Então vamos!!!"





sábado, 2 de agosto de 2008

Provérbios gregos