segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Trovadorismo, Vieira e as lágrimas de São Pedro

Repostando pr'atualizar. 

Dizem que o mal entra ou sai pela boca. Mas é pelos olhos, de fato, que os homens entram pelo cano. Ou não. Quiçá seja a ventura maior.
Estes meus olhos nunca perderán,
senhor, gran coyta, mentr' eu vivo fôr;
e direy-vos, fremosa mha senhor,
d'estes meus olhos a coyta que an:
choram e cegan, quand'alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

Guisado têen de nunca perder
meus olhos coyta e meu coraçon,
e estas coytas, senhor, mias son,
mays os meus olhos, por alguen veer,
choram e cegan, quand'alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

E nunca ja poderey aver ben,
poys que amor já non quer nem quer Deus;
mays os cativos d'estes olhos meus
morrerán sempre por veer alguen:
choram e cegan, quand'alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

Joan Garcia de Guilhade (séc. XIII, 1ª metade)
Trovadores galego-portuguêses - cantigas d'amor - in A Lírica Trovadoresca, Segismundo Spina, Grifo, 1972


Porque, segundo Vieira, chorar é próprio dos olhos e, sendo dos sentidos o único que tem dois ofícios, ver e chorar, o chorar é o lastimoso fim do ver; e o ver é o triste princípio do chorar.

Mas chora-se também pelo falar.


"E senão pergunto. Por que dizem os Evangelistas, com tão particular advertência, que chorou Pedro amargamente. Flevit amare? Se queriam encarecer as lágrimas de Pedro pela cópia, digam que se fizeram seus olhos duas fontes perenes de lágrimas: digam que chorou rios: digam que chorou mares: digam que chorou dilúvios. E se queriam encarecer esses dilúvios de lágrimas, não pela cópia, senão pela dor, digamos que chorou tristemente; digam que chorou sentidamente, digam que chorou lastimosamente, digam que chorou irremediavelmente, ou busque outros termos de maior tristeza, de maior lástima, de maior sentimento, de maior pena, de maior dor. Mas que deixado tudo isto só digam e ponderem, que chorou amargamente: Flevit amare? Sim, e com muita razão; porque o chorar pertence aos olhos, a amargura pertence à língua; e como os olhos de Pedro choravam por si, e mais pela língua, era bem que a amargura se passasse da língua aos olhos, e que não só chorasse Pedro, senão chorasse amargamente. Flevit amare. Como a culpa dos olhos em ver se ajuntou com a culpa da língua em negar; ajuntou-se também o castigo da língua, que é a amargura, com o castigo dos olhos, que são as lágrimas, para que as lágrimas pagassem o ver, e a amargura pagasse o negar, e os olhos chorando amargamente pagassem por tudo: Flevit amare.

Antônio Vieira, Sermão das lágrimas de São Pedro.

Rio-Niterói

Estive no Rio. Mais precisamente em Niterói. Camboinhas.
Levei a velha mãe, de carro.
Ficamos em casa de sobrinha dela.
A prima.
Voltamos hoje cedo.
A ponte às 6 da manhã,
com a neblina sobre
a baía, o Cristo, 
mesmo entremostrado
em nuvens cinza-escuras,
sentia-o em toda a presença. 
Cidades sagradas. 
Em cima da pedra,
era o mais calmo terror
da paisagem.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Serra do Cipó





Fiz hoje um passeio à Serra. Tomei um bainho de cachoeira só eu e Deus. Fiz umas fotos bonitas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O ano 1789 da revolução tunisiana














O tema da Revolução francesa muito me apaixona. Os mais chegados sabem de minha crença na metempsicose das almas e da encarnação na França revolucionária do século XVIII.

Estando de férias tanto da escola quanto das aulas de francês, para não enferrujar, me atrevo em algumas traduções. 

Esta que segue foi tirado da página do "Le Monde" de hoje. A matéria versa sobre a revolução na Tunísia e faz uma aproximação com a grande revolução de 1789.

Achei interessante, pois me emocionou bastante o feito desse povo, que outrora produziu um Aníbal e o extraordinário império cartaginês.

O link para o Le Monde é aqui.



Jean Tulard é historiador, especialista na Revolução Francesa e em revoluções em geral. Segundo ele, o futuro da sublevação tunisiana dependerá do papel desempenhado pelo exército.

Em um de mês de sublevação, o povo tunisiano obteve a queda do regime de Zine El-Abidine Ben Ali. Trata-se de uma revolução?

Uma revolta é um ato espontâneo, que nasce de uma indignação, de uma situação intolerável, de um acesso de desespero. Ela é geralmente anárquica, sem chefes, sem palavras de ordem, e limitada a um determinado local. São características que correspondem perfeitamente ao caso tunisiano, ao menos em seu começo.

A revolução defende uma mudança radical dos homens, das instituições, da maneira de pensar. Tomando como exemplo a Revolução Francesa, a sublevação era previsível e seus objetivos conhecidos: igualdade, através da abolição dos privilégios, supressão dos direitos feudais que pesavam sobre os camponeses, fim da monarquia absoluta. O modelo tunisiano não corresponde a esse esquema, desde que ele começou sem líder e sem base ideológica.

Mas segue uma trajetória paralela àquela da Revolução francesa que traz muitas comparações aos dois acontecimentos. A Revolução passou também por uma fase de motins antes de penetrar os espíritos de uma parte importante da população, como o 14 de julho de 1789 ou o 10 de agosto de 1792. Motins motivados pela fome e pelo desemprego, como na Tunísia.

Uma revolta pode, pois, engendrar uma revolução. Para isso, é preciso que as exasperações iniciais encontrem um eco nas aspirações mais profundas concernentes ao conjunto do país, e não mais em um território limitado apenas. Isso foi o que aconteceu no verão de 1789, quando os camponeses franceses, sem compreender bem o que se passava em Paris, se armaram e tomaram de assalto os castelos dos nobres. Foi isso também que aconteceu na Tunísia, onde a revolta começou em Sidi Bouzid, longe da capital, antes de migrar por todo o país.

É, por certo, esta distinção entre revolta e revolução que explica as procrastinações dos dirigentes franceses. Até meados de janeiro, se pensava ainda tratar-se de simples motins de fome, de uma revolta momentânea. No entanto, é fácil de se por fim a uma revolta: seja reprimindo-a ou respondendo favoravelmente às suas reivindicações. Parar uma revolução, é bem uma outra coisa...

Se seguindo esse paralelo entre a derrubado do regime de Ben Ali e a Revolução francesa, esta última pode sem dúvida nos trazer ensinamentos do que pode ser o futuro da Tunísia...

Seguindo a comparação, a Tunísia está, sem dúvida, a viver o seu próprio 1789 – que corresponde, para a França, ao momento de uma Assembleia nacional constituinte ainda dominada pela nobreza. A hora é, tanto em 1789 como hoje na Tunísia, do entusiasmo, da espera por reformas mais prodigiosas.

Mas os revolucionários franceses rapidamente se desencantaram: desde o começo, a Revolução teve que fazer face a uma situação econômica desastrosa e a afrontar a reação de outros países, tal como os vizinhos tunisianos vão talvez tentar sufocar um movimento que também os ameaça. Sem esquecer as lutas de clãs, que fazem com que a revolução redunde em sobressaltos por vezes sangrentos: Montanheses contra girondinos outrora, islamistas contra progressistas hoje.

Na França, esses sobressaltos não tiveram fim até o golpe de estado napoleônico do 18 de Brumário e a instauração de um regime ditatorial. Mas longe de mim de prever um tal devir à Tunísia, eu sou historiador, não um cientista político, e seria abusivo querer decalcar situações tão diferentes.

A única constante na história das revoluções é o papel primordial desempenhado pelo exército. Após o episódio de Cromwell, na Inglaterra, é o general Monk quem restabelece Charles II. E eu já falei da Revolução francesa, que se acaba realmente com o golpe de Bonaparte. É preciso acompanhar atentamente o que vai fazer o exército tunisiano.

Você disse que a sublevação tunisiana se espalhou sem base ideológica nem líder. Como, nesse contexto, explicar seu sucesso?

Eu já vi casos assim na história. A revolução inglesa do século XVII, ou a queda das democracias populares da Europa do leste, a partir de 1989, se construíram sobre as exasperações mais que sobre programas claros e definidos.

Nesses casos como no caso tunisiano, a revolta pode se transformar em revolução porque se tratava de regimes desacreditados, deslegitimados. Quando o regime é forte, a revolta não pode se transformar em revolução, ela é esmagada.

Este foi precisamente o erro de avaliação cometido por Ben Ali e pelos governos ocidentais: eles acreditaram em um regime mais sólido e ancorado que realmente era.

Os quadros do antigo regime parecem prontos a se manter no lugar. Uma revolução pode vingar sem excluir as elites do regime precedente?

Sim, isto não é nada de excepcional. A Revolução francesa, a bem de ter inventado o terror, teve também os seus “coringas”, suas pessoas versáteis. Sob a Revolução e nos anos que se lhe seguiram, certos funcionários prestaram até quinze juramentos. O exemplo do tenente-general Henry é um símbolo disso: chefe da polícia sob o antigo regime, estava ainda no lugar ao momento da Restauração. Durante a libertação, em 1944, a maior parte dos funcionários ficaram em seus lugares.

Você não pode trocar rapidamente homens que têm competências técnicas precisas. É particularmente válido para os técnicos.

E sobre os líderes mais graduados? Uma revolução pode se contentar em ver partir o antigo dirigente ao exílio, como é o caso de Ben Ali ?

É verdade que o julgamento seguido da morte do dirigente detido são os símbolos mais fortes das revoluções. Charle I é decapitado, Luís XVI guilhotinado, Nicolau II fuzilado, Ceaucescu metralhado...

A França, de resto, sem dúvida recusou acolher Ben Ali para não se ver depois em uma situação de extradição embaraçosa. Dito isso, os meios políticos evoluíram, as mudanças de regime são hoje menos sangrentas que no passado.

O novo governo anunciou eleições daqui a seis meses. Já se viu uma revolução desembocar em uma transição democrática pacífica sem passar por períodos de atribulações e violência?

A Revolução dos cravos, em Portugal, é talvez o único exemplo de uma passagem suave de poder. De modo geral, as tribulações e violências são a regra, sem falar dos acertos de contas.

Mas eu não estou tão inquieto com a Tunísia. O povo tunisiano não me parece muito focado em tumultos sangrentos e na violência. Eu seria mais pessimista se a mesma situação se apresentasse na Argélia.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Chuá chuá

Poesia

Essa água que passa, 
passa por causa.
Grande é o tempo e
curto
é o espaço
para alguns.

Imagens da região serrana do Rio




Mais aqui

Delícia de férias de verão


Impressionante a imagem da Nasa que mostra a concentração de nuvens praticamente dividida entre o sudeste brasileiro e o nordeste da América do Norte. 
Todo ano é assim.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Trabalhar com propaganda ou propagandear com trabalho?

Estas folhas de jornal são obra da prefeitura de Belo Horizonte.
Espalharam-nas por toda a cidade. É propaganda. Em sua maior parte inverdades e manipulação da informação.
Esse prefeito, como a maioria dos políticos, prefere trabalhar com propaganda, do que propagandear com o trabalho.
Mas eu estou convencido de que só foi eleito por causa daquela imbecilidade já por todos conhecida do sr. Pimentel, que no acordo que fez com o Aecinho, entrou com o rango e o outro com a boca.
Mas estou igualmente convencido que o belo-horizontino saberá reverter essa situação em 2012 e mostrar, como o fez em 2010, que mesmo reconhecendo o PT como um partido mais progressista que os demais, sabe cobrar os erros contra o povo.
Oxalá esse cara não se reeleja

A culpa é do volume a mais

O jornalismo que a velha mídia não fez

Nas enchentes de 2009, a mais importante matéria do período foi da Conceição Lemes, no blog Vi o Mundo.
Nela, o engenheiro Júlio Cerqueira César Neto mostra que as enchentes foram fruto de duas irresponsabilidades: redução das obras de limpeza do rio Tietê na gestão Serra e não cumprimento das metas de construção de piscinões nos últimos dez anos.
Levei o engenheiro em um Brasilianas sobre defesa civil. Ele foi taxativo: "Qualquer geólogo e qualquer técnico do DAEE sabe disso. Mas os jornais estão escondendo".
A velha mídia escondeu a causa da maior tragédia coletiva da história da cidade.  


Aqui

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Combate à dengue



Vamos ajudar a divulgar.

Mais, aqui, no blog do planalto.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Júpiter e satélites


Ganimedes, Calixto, Europa e Júpiter.

Io, que gasta pouco menos de dois dias terrestres em sua órbita, está oculto pelo planeta.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Provérbios gregos e latinos



Ἄπληστον τὸ διá παντὸς κέρδος.

Insatiable est ex omni re lucrum.

Todo lucro é insaciável.

Tina Rosenberg: O sucesso dos programas de transferência de renda

Do Viomundo

Faz tempo que não uso este espaço para divulgar matéria jornalística. Mas achei este texto muito bom e que serve prá mostrar o quanto é ruim a nossa imprensa.  

January 3, 2011, 8:15 pm
To Beat Back Poverty, Pay the Poor [Para derrotar a pobreza, pague aos pobres]
By TINA ROSENBERG
No Opinionator, do New York Times, sugerido pelo Leider Silva
A cidade do Rio de Janeiro é famosa pelo fato de que uma pessoa pode olhar de um barraco precário em um morro, desde uma favela miserável, e ver praticamente dentro da janela de condomínios de alto luxo. Partes do Brasil se parecem com o sul da Califórnia. Partes parecem com o Haiti. Muitos países mostram grande riqueza ao lado de grande pobreza. Mas até recentemente o Brasil era o país mais desigual do mundo.
Hoje, no entanto, o nível de desigualdade econômica no Brasil está se reduzindo num ritmo maior que o de qualquer outro país. Entre 2003 e 2009, a renda dos pobres brasileiros cresceu sete vezes mais que a renda dos brasileiros ricos. A pobreza foi reduzida neste período de 22% para 7% da população.
Contraste isso com os Estados Unidos, onde entre 1980 e 2005, mais de 4/5 do aumento da renda foi para o 1% no topo da escala (veja aqui — the book is on the table — uma grande série sobre desigualdade nos Estados Unidos feita por Timothy Noah, da [revista eletrônica] Slate). A produtividade entre os trabalhadores americanos de renda baixa e média aumentou, mas a renda não. Se a tendência atual for mantida, os Estados Unidos podem em breve se tornar tão desiguais quanto o Brasil.
Vários fatores contribuiram para o feito surpreendente do Brasil. Mas a maior parte é devida a um único programa social que agora está transformando a forma com que os países de todo o mundo ajudam os pobres.
O programa, chamado Bolsa Família no Brasil, recebe nomes diferentes em lugares diferentes. No México, onde primeiro começou em escala nacional e foi igualmente bem sucedido na redução da pobreza, é chamado Oportunidades.
O termo genérico para os programas é “transferência condicional de renda”. A ideia é fazer pagamentos regulares a famílias pobres, em dinheiro ou transferências eletrônicas, se elas cumprirem certas metas.
As exigencias variam, mas muitos países usam o que o México usa: famílias precisam manter as crianças na escola e fazer exames médicos regulares, a mãe precisa fazer cursos sobre temas como nutrição e prevenção de doenças. Os pagamentos quase sempre vão para as mulheres, já que elas mais provavelmente vão gastar o dinheiro com suas famílias. A ideia elegante por trás das transferências condicionais de renda é combater a pobreza hoje, mas quebrando o ciclo de pobreza amanhã.
A maior parte de nossas colunas até agora tem sido sobre ideias bem sucedidas, mas pequenas. Elas enfrentam uma dificuldade comum: como funcionar em maior escala. Esta é diferente. O Brasil está empregando uma versão de uma ideia que agora está em uso em 40 países do globo, uma ideia já bem sucedida em uma impressionantemente enorme escala. Este é provavelmente o mais importante programa de governo antipobreza que o mundo já viu. Vale a pena saber como funciona e porque foi capaz de ajudar tanta gente.
No México, Oportunidades hoje cobre 5,8 milhões de famílias, cerca de 30% da população. Uma família da Oportunidades com uma criança na escola primária e outra na escola secundária, que cumpre todas as exigencias, pode receber um total de 123 dólares por mês. Os estudantes também podem receber dinheiro para material escolar e as crianças que completam o ensino médio dentro do tempo recebem um pagamento de 330 dólares.
A Bolsa Família, que tem exigências similares, é ainda maior. Os programas de transferência condicional de renda do Brasil foram iniciados antes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ele consolidou vários programas e os expandiu. Agora cobre cerca de 50 milhões de brasileiros, um quarto dos habitantes do país. Paga um valor mensal de 13 dólares para as famílias pobres por criança de 15 anos ou menos que estiver na escola, para até três crianças. As famílias podem ter um valor adicional de 19 dólares por criança de 16 ou 17 anos ainda na escola, para um máximo de duas crianças. Famílias que vivem na extrema pobreza recebem um beneficio básico de 40 dólares, sem condições.
Estas somas parecem dolorosamente pequenas? São. Mas uma família vivendo em extrema pobreza no Brasil dobra a sua renda quando recebe o benefício básico. Faz tempo está claro que o Bolsa Família reduziu a pobreza no Brasil. Mas apenas pesquisas recentes revelaram o papel do programa na redução da desigualdade econômica.
O Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento estão trabalhando com governos para espalhar os programas em todo o mundo, dando ajuda técnica e empréstimos. Os programas de transferência condicional de renda são encontrados agora em 14 países da América Latina e em outros 26 países, de acordo com o Banco Mundial. (Um dos programas é em Nova York, um programa piloto pequeno, financiado privadamente, chamado Opportunity NYC. Uma avaliação inicial mostrou sucesso relativo, mas ainda é cedo para tirar conclusões). Cada programa é desenhado para as condições locais. Alguns na América Latina enfatizam a nutrição. O da Tanzânia está experimentando com pagamentos condicionais que dependem do comportamento de toda a comunidade.
O programa combate a pobreza de duas formas. Uma, direta: dá dinheiro aos pobres. Funciona. E, não, o dinheiro não é roubado nem desviado para os mais ricos. O Brasil e o México são muito bem sucedidos em incluir apenas os pobres. Nos dois países houve redução de pobreza, especialmente pobreza extrema, e houve redução da taxa de desigualdade.
O outro objetivo da proposta — dar mais educação e saúde às crianças — é de longo prazo e mais difícil de medir. Mas tem sido medida — o Oportunidades é provavelmente o programa social mais estudado do planeta. O programa tem um grupo de avaliação e publica todos os seus dados. Houve centenas de estudos de acadêmicos independentes a respeito dele.
No México houve redução de desnutrição, anemia e nanismo, assim como de outras doenças da infância e de adultos. A mortalidade infantil e de mães caiu. O uso de contraceptivos na zona rural aumentou e a gravidez de adolescentes caiu. Mas os efeitos mais dramáticos foram vistos na educação. Crianças no Oportunidades repetiram menos de ano e ficaram mais tempo na escola. O trabalho infantil caiu. Em zonas rurais, a porcentagem de crianças entrando no ensino médio aumentou 42%. Matrículas em escolas médias da zona rural aumentaram imensos 85%. Os maiores efeitos em educação se dão em famílias onde as mães têm o menor nível de educação. Famílias indígenas do México foram particularmente beneficiadas, com as crianças ficando mais tempo na escola.
O Bolsa Família tem um impacto similar no Brasil. Um estudo recente descobriu aumentos na permanência na escola e no avanço escolar — particularmente no Nordeste, onde a presença na escola é a menor, e particularmente para as meninas mais velhas, que correm o maior risco de abandonar os estudos. A pesquisa também descobriu que o Bolsa aumentou o peso das crianças, os índices de vacinação e o uso do cuidado pré-natal.
Quando viajei pelo México em 2008 para fazer reportagem sobre o Oportunidades, encontrei família atrás de família com histórias distintas entre o antes e o depois. Pais cujo trabalho consistia em usar machetes para cortar grama tinham, graças ao Oportunidades, filhos formados na escola secundária e que agora estavam estudando contabilidade ou enfermagem. Algumas famílias tinham filhos mais velhos que haviam sido maltrunidos na infância, mas as crianças mais jovens agora eram saudáveis porque o Oportunidades tinha chegado em tempo de ajudá-las a se alimentar melhor.
Na cidade de Venustiano Carranza, no estado mexicano de Puebla, encontrei Hortensia Alvarez Montes, uma viúva de 54 anos de idade cuja renda vinha de lavar roupa. Tinha parado de estudar na sexta série, da mesma forma que três dos filhos dela. Mas quando o Oportunidades chegou, ela manteve as crianças mais novas na escola. Estavam ambos completando o ensino secundário quando os visitei. Um deles planejava fazer faculdade.
Fora do Brasil e do México, os programas de transferência condicional de renda são mais novos e menores. De qualquer forma, há amplas pesquisas demonstrando que também eles aumentam o consumo, reduzem a pobreza e aumentam a permanência na escola e o uso de serviços de saúde.
Se programas de transferência condicional de renda funcionarem adequadamente, muitas novas escolas e clínicas serão necessárias. Mas os governos nem sempre podem acompanhar a demanda e algumas vezes só podem fazer isso reduzindo drasticamente a qualidade. Se este é um problema para países de renda média como o Brasil e o México, imagine o desafio para Honduras ou Tanzânia.
Para os céticos, que acreditam que programas sociais nunca funcionam em países pobres e que a maior parte do que é gasto com eles é roubado, os programas de transferência condicional de renda são uma resposta convincente. Aqui estão programas que ajudam os que mais precisam de ajuda e que fazem isso com pouco desperdício, corrupção ou interferência política. Mesmo programas pequenos, que atendam uma única vila e sejam bem sucedidos, são motivo para celebrar. Fazer isso na escala que México e Brasil fizeram é impressionante.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Verão nosso de cada dia

Desde finais de Outubro chove aqui em BH. Com alguns dias limpos em novembro, dezembro foi água apenas. Há mais de dez dias que não vejo sol. Chove sem parar desde o réveillon. Tudo está úmido.
E é sempre assim nas férias de janeiro.
O mato cresce logaritimamente no quintal.
Zumbido de goteiras.
Já desisti de tentar proteger o bino e o tele: não tenho grana para um desumidificador.
O cachorro, coitado, está molhado e com escoriações nas patas.
Há uma certa melancolia na umidade e no cinza.
Falta amarelo às coisas.

Provérbios gregos