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terça-feira, 4 de agosto de 2009

A igreja de ontem e os privilégios de sempre











No antigo regime, o clero possuía um quinto das terras do reino. Possuía? Não, era depositário de bens que pertenciam à nação, ao povo. Em verdade não era o clero como um conjunto que detinha esse patrimônio, eram os poucos grandes dentre eles: o alto clero. A revolução, a Assembléia Nacional decidiu vender esses bens como hipoteca para o papel moeda que era lançado - as assignats - para substituir o metal precioso. Michelet, que foi um historiador brilhante, mas parcial, convenhamos, falou um pouco sobre isso na sua História da Revolução Francesa:

"...O arcebispo de Aix, em um discurso choroso, cheio de lamentações infantis, descosidas, perguntou se teriam a coragem de arruinar os pobres, retirando do clero o que lhe foi dado para eles, Arriscou o paradoxo de que a bancarrota se seguiria infalivelmente à operação destinada a evitar a bancarrota. Acusou a Assembleia de ter tocado no espiritual, declarando nulos os votos, etc., etc.
Enfim, chegou a oferecer, em nome do clero, um empréstimo de quatrocentos milhões, hipotecados sobre seus bens."

Um pouco antes, em dezembro de 89, logo após um decreto que destinava os bens do clero à nação, a Assembleia havia decidido outro decreto onde destituía o clero enquanto ordem.

"...Ao que Thouret (um dos deputados) respondeu, com sua fleuma normanda: "Oferece-se em nome de um corpo que não existe mais..." E ainda: "Quando a religião vos enviou ao mundo, disse-vos: 'Ide, prosperai e fazei aquisições?..."

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Os livros de 2008

Entre os livros que li durante o ano que se finda, quero fazer uma pequena, mas significativa, lista dos que considerei os melhores. Devo ter lido uma média de quatro livros por mês. São os seguintes, sendo que alguns trazem os links dos modestos comentários que fiz sobre eles:

Madame Bovary, de Flaubert, foi um livro belo, um excelente livro. Considerei-o um clássico.
A San Felice, de Dumas Père, que me custou mais de um mês para percorrer suas 1800 páginas, também foi um livro tocante, como a maioria do autor francês.
A feiticeira, de Jules Michelet, curioso e difícil que precisarei reler para compreendê-lo melhor.
O Homem que ri, de Victor Hugo, um livro muito triste.
E, os três mais importantes, daqueles que mudam alguma coisa na alma da gente, ainda que se não perceba:
O Idiota, de Dostoievsky, uma maravilha, emocionou-me profundamente.
Os miseráveis, também de Victor Hugo, cujo protagonista só está a um passo atrás de Jesus, se é que não caminha ao lado dele.
E Memórias de um médico (1,2,3,4), também de Dumas Père, uma coleção de várias livros, todos interligados numa epopéia de mais de vinte anos da história de França, contando ao todo quase 5.000 páginas, onde desfilam inúmeros personagens, os quais não esquecerei nunca. Ou pelo menos perto disso.

Ano que vem, se conseguir realizar os planos, quero estudar francês com mais profundidade do que a gramática que comprei, continuar com a franco-literatura, pois ainda faltam muitos livros de Dumas (reler Os três mosqueteiros, Vinte anos depois e alguns outros que ainda não li, tais como A rainha Margot, O Visconde de Bragelone, Luis XIV e seu século, O cavaleiro de Harmental, entre outros), de Victor Hugo (A Notre Dame de Paris, O último dia de um condenado, entre outros), de Balzac, Eugene Sue entre outros.
O interesse pela literatura francesa vem das vidas passadas, é claro, marcadas ainda pelo sobrenome e por devaneios difusos da alma. Não precisam acreditar nisso.
Quero também, atacar um pouco a literatura brasileira do século dezenove, principalmente Machado e Alencar. Todos, é claro, empréstimos da biblioteca pública. Comprar, só as raridades.
Os livros de autores contemporâneos, não os desprezo, mas é que a maioria tem que ser comprada, pois demoram a aparecer nas estantes da Luis de Bessa os poucos que ali chegam.
Tudo planos, talvez quimeras, como o amor...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

A noiva de Corinto






















Na impossibilidade de ler "A História da Revolução Francesa" de Michelet (até tem, para consulta somente, aqui em nossa biblioteca pública, mas em francês), encontrei um outro seu livro, este para empréstimo, de nome "A Feiticeira". Estou lendo-o. No comecinho do livro, ele cita uma história antiga, contada por um tal de Flégon, nos tempos de Adriano, e que acabou chegando até os dias de hoje. Não vou fazer aqui uma interpretação, mesmo porque a sua forma de escrever é um tanto, propositalmente, intrincada. Cabe ao leitor decifrar a história.

Um jovem de Atenas vai a Corinto, à casa daquele que lhe prometera a filha. Ele continuava sendo pagão e não sabia que a família para a qual iria entrar acabara de se tornar cristã. Ele chegara bem tarde a Corinto. Todos já se haviam recolhido, menos a mãe de sua noiva, que o recebe, lhe dá de comer depois o leva a dormir. Ele morre de cansaço. Quando começa a ressonar, uma figura entra no quarto: É uma jovem, toda coberta por um véu branco, com uma faixa negra e dourada circundando a fronte. Ela o vê e, surpresa, levanta sua branca mão:
“_Será que já sou tão estrangeira nessa casa?... Ai de mim, pobre reclusa... Mas tenho vergonha, partirei. Repousa.
“_Fica, bela jovem - diz o rapaz; aqui estão Ceres, Baco, e, com tua presença, também o Amor! Não tenhas medo, não fique assim tão pálida!
“_Ah, quem me dera gozar ainda momentos de alegria! Mas em virtude de promessa feita por minha mãe doente, a juventude e a vida foram-me para sempre atadas. Os deuses me abandonaram. Agora, os sacrifícios são feitos somente com vítimas humanas.
“_Mas, como, serás tu! Tu, minha noiva amada, que me foi prometida desde a infância? Os votos de nossos pais nos ligam para sempre, sob a bênção do céu! Ó virgem! Sê minha!
“_Não, meu amigo. Não possuirás a mim, mas à minha irmã mais nova. Se eu chorar em minha fria prisão, pense em mim, nos braços dela, em mim que me consumo e não penso se não em ti; em mim, que a terra vai recobrir.
“_Não, eu reconheço esse ardor: é a chama do matrimônio. Tu virás comigo à casa de meu pai. Fica, minha bem-amada.
“Como presente de núpcias, ele lhe oferece um cálice dourado. Ela lhe oferta a sua corrente, mas, em lugar do cálice, prefere uma mecha dos cabelos do jovem.
“É a hora dos espíritos. Ela sorve com seus lábios pálidos o vinho cor de sangue. Em seguida,ele avidamente esvazia seu cálice. Embora com o coração fraquejando, ela ainda resiste. Mas ele se desespera e se lança chorando sobre o leito. Ela se aproxima e diz:
“_Ah, como tua dor me maltrata! Mas se tu me tocares, como me sentirás gelada! Branca como a neve fria, como o gelo, ai de mim, eis como é tua noiva....
“_Vem - diz o jovem -, eu te reanimarei! Quando tu abandonares o túmulo...
“Suspiros e beijos são trocados.
“_Não vês como ardo?
“O amor os aproxima, os une. As lágrimas se misturam ao prazer. Ela bebe, excitada, o fogo em sua boca. O sangue congelado transforma-se em ardor amoroso, mas o coração não bate mais em seu peito.
“Entretanto, a mãe espreitava, escutava tudo. Doces promessas, gemidos de dor e volúpia.
“Silêncio!”, diz a jovem, O galo está cantando! Até amanhã, à noite!
“Depois, adeuses beijos e mais beijos.
“A mãe entra, indignada e depara com a filha. O jovem procura protegê-la,
abraçando-a. Mas ela se liberta de seus braços, levanta-se e se dirige à mãe.
“Ó minha mãe, invejais minha felicidade, expulsastes-me para aquele lugar sem vida. Não estais satisfeita em me ter enrolado na mortalha e tão depressa me conduzido ao túmulo? Mas uma força levantou a pedra. Belas palavras vossos padres resmungaram sobre minha tumba! Que fazem o sal e a água, onde arde a juventude? A terra não esfria o amor! Vós prometestes; eu venho reclamar meu amado... Infelizmente, meu amigo, é preciso que morras. Tu desfalecerás, tu esfriarás aqui. Tenho comigo teus cabelos, amanhã eles estarão brancos... Mãe, uma derradeira súplica! Abri meu negro cárcere, fazei uma fogueira, e que os amantes tenham o repouso das chamas. Que cintilem as faíscas e se avermelhe a cinza! Nós caminharemos para junto de nossos antigos deuses .

Michelet, Jules em "A feiticeira", Círculo do livro - p.23

Provérbios gregos