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sábado, 27 de junho de 2009

Depois dos treze, impossíveis.
















Bilitis e as amigas, que hoje só são possíveis até ali por volta dos treze anos, como vejo em minhas alunas. Fosse outrora, seriam núbeis: andam abraçadas ou de mãos dadas entre cochichos e risinhos. Às vezes, quando se encontram, entre uma aula e outra, se abraçam apertado e gritam aquele grito fino, próprio das mulheres, a plenos pulmões, desvairadas. Então caem na gargalhada e se despedem. Eu acho tudo isso maravilhoso.
Depois, os diabinhos do medo e da inveja já invadem e reinam no coração das mulheres.
Uma pena.

O jogo de Ganizes

Como o amássemos ambas, jogamo-lo em ganizes. E foi uma partida memorável. Muitas jovens a ela assistiram.

Minha rival começou pelo lance dos Kyklopes, e eu, pelo de Solon. Ela jogou o Kallibolos, e eu, sentindo-me perdida, supliquei à deusa.

Joguei então o Epiphenon, e ela, o terrível lance de Khios. Eu, o Antiteukhos, e ela, o Trokhias, e eu, o de Afrodite, que ganhou o amante disputado.

Mas, ao vê-la empalidecer, abracei-a pelo pescoço e sussurrei-lhe ao ouvido, para que só ela me ouvisse: "Não chores, minha amiga, deixaremos que ele escolha entre nós".

domingo, 14 de setembro de 2008

Enquanto o mundo explode aqui perto, na Bolívia, é fácil a solução: Cantemos!

Então, pensando na riqueza do classicismo, que tal uma brincadeira?
O desafio é traduzir o soneto, sendo que para isto, carece de compreender a sintaxe e as referências; o que, no fundo, é a mesma coisa.

Quem traduz o soneto de Camões?

Enquanto Febo os montes acendia
do Céu com luminosa claridade,
por evitar do ócio a castidade
na caça o tempo Délia despendia.

Vénus, que então de furto descendia,
por cativar de Anquises a vontade,
vendo Diana em tanta honestidade,
quase zombando dela, lhe dizia:

-Tu vás com tuas redes na espessura
os fugitivos cervos enredando,
mas as minhas enredam o sentido.

—Melhor é (respondia a deusa pura)
nas redes leves cervos ir tomando
que tomar-te a ti nelas teu marido.

O poema é um tanto quanto agressivo. Típica estrutura que envolve a relação Ártemis/Afrodite. Há já a relação santa/puta sociabilizada pela igreja.
A finalização é longa, própria do esquema abba abba cde cde.
Parece briga de crianças. Em meio a essas brigas, muitas tragédias se iniciam.
Anquises é o pai de Enéas,
de quem, a mãe é Afrodite.
Anquises era filho de Capis com Temiste ou com Ierômne.
Temiste era filha de Ilo, que por sua vez, era filho de Tros. Estes personagens são os fundadores de Tróia.
Ierômne era uma naiade, filha do Deus rio Simois, que se une ao Escamandro na planície de Tróia.

Pergunta: Que tem Anquises a ver com Ártemis?

Ps. Não é linda a Ártemis bonequinha? Parece com a Salma Hayec.

domingo, 10 de agosto de 2008

Um anuncio

Todo final de tarde estabelece-se a rede de bem-te-vis.
Uma trama complexa e dinâmica.
Eles vêm e vão constantemente
entre as árvores daquela minha circunscrição.
Sempre se comunicando numa intrincada cadeia
de Bentiiviis! e Bintiviiis! Beeeeentiiivis!
e Beennnntivis! e outras palavras beentivínicas.
Eu gosto de ouvi-los,
eles e elas bem-te-vis
encerram o dia com dignidade e sabedoria.
Orquestram entre si o desenrolar da noite e,
depois, quedam-se em silêncio gentil.
Seus volteios circunflexos e gritos briguentos
são de qualquer coisa de vida de ver.
Boas tardes de domingos, enquanto
os escafandros pendurados
em estratégicos lugares
de algum museu no sul de Minas,
projetam, entre sombras
da árvore frutífera em seu redor,
os contornos frios, sombrios propriamente,
que, no fundo letras – como a linha preta
sobre a branca mancha do papel – nos
lançam as imagens aos sonhos, às quimeras...
Confusão.
Nada há mais difícil que as palavras.
As bem-te-vis acalmam o embate do dia.
O lusco-fusco,
gentilmente convidado por elas,
instaura as suas cores.
Os cinzas chamados são a prevalecer.
Mais uma noite se anuncia...
As letras perdem espaço aos sentidos.
Não se assustem, o amor, mais uma vez, reclama o seu trono.



Tudo besteira.

domingo, 13 de julho de 2008

ode a afrodite






















Meus conhecimentos do grego antigo ainda são muito superficiais, o que não poderia deixar de ser, pois só o estudo há coisa de um ano e meio.
No entanto, me permiti esta tradução, que deixo aqui no blog. Foram três semanas de embates com o eólico de Safo, com o qual não estava acostumado, nem ainda estudado. Ainda que as diferenças se dêem, principalmente, na ortografia das vogais, há os casos de contrações, que, por conseguinte, também se processam de forma diferente do ático. Também notei os redobros de consoantes, tais como o sigma e o rô, entre outros fenômenos que são próprios do grego épico e mais antigo. Não foi possível manter a estrofe sáfica. Mesmo porque ainda sou neófito com a versificação e a métrica. Fiquei satisfeito em ter obtido os quatro versos por estrofe, coisa que, ainda que tenha dado trabalho, foi compensador. Espero não ter feito muito feio. Estou aberto às críticas e sugestões das centenas de estudantes de grego antigo e helenistas que visitam estas paragens.


"Ποικιλόθρον', ἀθάνατ' Ἀφρόδιτα,
παῖ Δίος, δολόπλοκε, λίσσομαί σε
μή μ' ἄσαισι μήτ' ὀνίαισι δάμνα,
πότνια, θῦμον·

ἀλλὰ τυῖδ' ἔλθ', αἴποτα κἀτέρωτα
τᾶς ἔμας αὔδως ἀΐοισα πήλυι
ἒκλυες, πάτρος δὲ δόμον λίποισα
χρύσιον ἦλθες

ἄρμ' ὐποζεύξαισα· κάλοι δέ σ' ἆγον
ὤκεες στροῦθοι περὶ γᾶς μελαίνας
πύκνα δινεῦντες πτέρ' ἀπ' ὠράνω αἴθε-
ρας διὰ μέσσω.

αἶψα δ' ἐξίκοντο· τὺ δ', ὦ μάκαιρα,
μειδιάσαισ' ἀθανάτῳ προσώπῳ,
ἤρε', ὄττι δηὖτε πέπονθα κὤττι
δηὖτε κάλημι,

κὤττι μοι μάλιστα θέλω γένεσθαι
μαινόλᾳ θύμῳ· τίνα δηὖτε Πείθω
μαῖς ἄγην ἐς σὰν φιλότατα, τίς σ', ὦ
Ψάπφ', ἀδικήει;

καὶ γὰρ αἰ φεύγει, ταχέως διώξει,
αἰ δὲ δῶρα μὴ δέκετ' ἀλλὰ δώσει,
αἰ δὲ μὴ φίλει, ταχέως φιλήσει
κωὐκ ἐθέλοισα.

ἔλθε μοι καὶ νῦν, χαλεπᾶν δὲ λῦσον
ἐκ μεριμνᾶν, ὄσσα δέ μοι τελέσσαι
θῦμος ἰμέρρει, τέλεσον· σὺ δ' αὔτα
σύμμαχος ἔσσο."

(Σαπφοῦς)


"Imortal Afrodite, de bem talhado trono,
filha de Deus, tecedora de intrigas,
rogo-te: não subjugues com dores e culpas,
Deusa, a minh' alma!

Mas vem a mim! pois nem outrora, quando
ao longe, os meus clamores escutando,
quizeste, de teu pai, deixar a casa
em tua áurea carruagem.

Os belos e mui velozes pardais
conduzem-te por densas vastidões,
em meio ao firmamento, de infi-
nito éter.

Logo chegando. E oh, tu, a mais feliz,
sorrindo em tuas faces sempiternas,
perguntas-me agora o que sinto,
e porque agora o meu apelo,

E o que mais quer o meu coração
aflito ver. Qual queres que, das belas,
ao temível amor convença, oh Safo,
qual que te rejeita e injuria?

Pois que se foge, te tão logo segue,
e se presentes recusa, logo os dará,
e se ainda não ama, em breve amará,
ainda que o negue.

Agora vem! De dor e anseios livra-me
e o quanto a alma, a completude anseia
há tanto, dê-lho, e sê, de mim,
amiga enfim."

(Safo)


Tradução de Josaphat Neto.
Fiz consultas em:

_Safo lírica, de Haddad, Jamil Almansur, Ed. Cultura, S.Paulo, 1942 e
http://classicpersuasion.org/pw/sappho/sape01u.htm#fr001

sábado, 5 de julho de 2008

Helenismo - Ártemis






















Tenho andado rodeando Safo e Anacreonte. Este, há mais tempo, essa por agora. Tenho tentado umas traduções, mas a coisa é muito lenta, ainda estou engatinhando o grego. Por enquanto fica um mestre.

de Safo

Em torno à Silene esplêndida
os astros
recolhem sua forma lúcida
quando plena ela mais resplende
alta
argêntea

Morto o doce Adônis,
e agora,
Citeréia,
que nos resta?
Lacerai os seios,
donzelas,
dilacerai as túnicas.
.
(tradução de Haroldo de Campos)

Aqui, a segunda estrofe, em grego:


Κατθνάσκει, Κυθέρη', ἄβρος Ἄδωνις, τί κε θεῖμεν·
καττύπτεσθε κόραι καὶ κατερείκεσθε χίτωνας.


Diz a lenda que Ártemis teria morto a Adônis,
mortal mais amado pela Cíterea
Afrodite de longos cabelos.
O fez por ter a deusa do Amor
matado a Hipólito,
por vingança.

Hipólito, filho do primeiro casamento de Teseu com a rainha amazona Hipólita, era adorador da deusa Ártemis, irmã de Apolo, o Sol, a padroeira das matas e da caça, a Lua. Era ela, também, conhecida pela castidade. Hipólito, assim, devoto da deusa, seguia seus preceitos de vegetarianismo e castidade. Afrodite passou a odiá-lo, pois que o jovem insistia em negar-lhe devoção, nem mesmo simples oferendas. Ele a desprezava.
Pois a deusa do Amor, em vingança, tramou uma situação em que Hipólito, sem o saber, despertou o amor de Fedra, atual esposa de seu pai e, portanto, sua madastra. Esta, outra vítima da Cípria (um dos epítetos de Afrodite), acaba se suicidando, para evitar a vergonha por ter seu amor sido descoberto pelo amado, que o rejeita violentamente, e pela inevitável condição de adúltera diante do marido, Teseu. Antes de se matar, deixa um bilhete, numa plaquinha de madeira, onde acusa Hipólito de tê-la violentado. Teseu, lendo o bilhete, tirado das mãos da esposa morta, infla-se de ódio e indignidade pelo filho e, para não matá-lo, exíla-o da cidade, além de rogar-lhe uma praga de morte, pedida a seu protetor Poseidon, que o atende matando a Hipólito. Ártemis então, revela a Teseu a intriga de Afrodite e promete-lhe, em sua dupla dor, da perda da amada e, da injustiça praticada contra o filho, vingar-se, matando a Adônis, preferido de Afrodite.
A história, do ciclo heróico, faz parte da história da cidade de Atenas, sendo Teseu, um de seus mais conhecidos reis.
O resumo que fiz acima é horrível. A história sempre se repete e, o que conta, é a maneira de contá-la. Por isso os gregos repetiam tantas vezes as mesmas. Aliás, continuam sendo repetidas. A história se repete, repito.
Eu não sou um bom contador, mas para quem se interessar por uma história bem contada, há uma versão online, da clássicos jackson, do "Hipólito" de Eurípedes, aqui.
E da "Fedra" de Racine, da mesma coleção, aqui.
Ambas em português.

Mais uma postagem abobrinha.

Provérbios gregos