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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Safo lírica




Por causa dessa lua de junho, por estar lendo um livro interessante sobre a lírica antiga e para vivificar o blog.

Outra vez as estrelas, em torno
à Lua bela, ocultam
suas luminosas figur[inhas] .
[Isto acontece sempre que]
Ela, toda cheia,
no auge [do firmamento]
vai prateando
a [obscura] Terra.

Na verdade, não tem tradução que não traia.

ἄστερες μὲν ἀμφὶ χάλαν σελάνναν
ἂψ ἀπυχρύπτοισι φάενον εἶδος
ὄπποτα πλήθοισα
                 μάλιστα χάμπη
γᾶν
           ἀργυρία

domingo, 20 de dezembro de 2009

De como esqueceu-se a mãe...

Musa e Cítara. Aqui.

e as responsabilidades.

Da amizade entre as mulheres,

ou de como as mulheres se esqueceram das antigas escolas,
como de Mitilene,
ou de
onde estão as amigas?

Dizem-se amigas... Beijam-se... Mas qual!
Haverá quem nisso creia?!
Salvo se uma das duas, por sinal,
for muito velha, ou muito feia...

Mário Quintana

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sapho vivificando o blog























Que as deusas e os deuses permitam que
o verão tenha noites assim:

Outra vez as estrelas, em torno
à Lua bela, ocultam
suas luminosas figur[inhas] .
[Isto acontece toda vez que]
Ela, toda cheia,
no auge [do firmamento]
vai prateando
a [obscura] Terra.



quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A minha alma estranha















(Sandro Botticelli - Primareva - 1482 - link aqui)



Pois que gosto muito de Bilitis. Se as mulheres gostam dos poetas homens, por que não os homens gostarem das poetisas? Os homens têm medo do feminino. Medo da castração.
Mas Bilitis não existiu realmente. Apenas na alma de um poeta que conhecia como poucos a alma feminina.
Os trovadores galegos-portuguêses gostavam de expressar um eu lírico feminino, que chamavam de "Canções de amigo". Uma hora vou postar algumas dessas poesias aqui no blog.
Gosto de coisas delicadas como os miosótis.

A Chuva

A chuva fina molhou todas as coisas. Bem suavemente e em silêncio. Continua chovendo. Vou passear sob as árvores. Descalça, para não sujar os sapatos.

Deliciosa a chuva na primavera. Os ramos carregados de flores molhadas têm um perfume embriagador. Brilha ao sol a delicada pele dos troncos.

Ai de mim! Quantas flores no chão! Tende pena das flores caídas. Não devemos varrê-las com a lama. Deixemo-las para as abelhas.

Escaravelhos e lesmas atravessam o caminho entre as poças d'água. Não quero pisá-los, nem assustar o lagarto, que se espicha, piscando os olhos.

No texto francês original, ao que parece, sem os acentos.

9 -- LA PLUIE
La pluie fine a mouille toutes choses, tres
doucement, et en silence. Il pleut encore un
peu. Je vais sortir sous les arbres. Pieds
nus, pour ne pas tacher mes chaussures.

La pluie au printemps est delicieuse. Les
branches chargees de fleurs mouillees ont un
parfum qui m'etourdit. On voit briller au
soleil la peau delicate des ecorces.

Helas! que de fleurs sur la terre! Ayez
pitie des fleurs tombees. Il ne faut pas les
balayer et les meler dans la boue; mais les
conserver aux abeilles.

Les scarabees et les limaces traversent le
chemin entre les flaques d'eau; je ne veux
pas marcher sur eux, ni effrayer ce lezard
dore qui s'etire et cligne des paupieres.

domingo, 20 de setembro de 2009

Bilitis




















(Nêmesis - imagem original aqui)

Esse livro é todo maravilhoso. Foi escrito pelo poeta francês Pierre Louys lá pelos últimos anos do saudoso, do ponto de vista literário, século dezenove. São as canções de Bilitis, que seria uma poeta e contemporânea da também poeta (a maior segundo os próprios gregos) Sappho de Lesbos. Bilitis nasceu na Pamphylia, região da Anatólia, ou Ásia Menor, entre a Lícia e a Cilícia, espremida entre o Mediterrâneo e o Monte Taurus. Era filha de um grego e de uma fenícia. Ouçamos o próprio Louys:

"Levantava-se de manhã, ao cantar do galo, dirigia-se ao estábulo, levava os animais ao bebedouro e ocupava-se da ordenha. Durante o dia, caso chovesse, ficava no gineceu a fiar na roca sua lã. Se fazia bom tempo, corria pelos campos, divertindo-se com as companheiras em mil jogos, de que nos fala.
Bilitis cultivava uma ardente piedade com relação às ninfas. Destinavam-se à sua fonte os sacrifícios que quase diariamente oferecia. Não raro, lhes falava, mas parece que nunca chegou a vê-las, pois relata com veneração em suas memórias o caso de um velho que um dia as surpreendera.
O fim de sua existência bucólica foi entristecido por um amor sobre o qual pouco sabemos, embora dele fale longamente. Deixou de cantá-lo assim que se tornou infeliz. Dando à luz uma criança, que abandonou, saiu Bilitis, por misteriosas razões, da Pamphylia, para nunca mais rever o lugar em que nascera."

Alter-ego da poetisa Sappho, de quem difere pela obra completa que nos chegou, Bilitis, de fato, nunca existiu; o poeta a inventou.
Invenção maravilhosa.

No francês original:

3 -- PAROLES MATERNELLES
Ma mere me baigne dans l'obscurite, elle
m'habille au grand soleil et me coiffe dans
la lumiere; mais si je sors au clair de lune,
elle serre ma ceinture et fait un double
noeud.

Elle me dit: "Joue avec les vierges, danse
avec les petits enfants; ne regarde pas par
la fenetre; fuis la parole des jeunes hommes
et redoute le conseil des veuves.

Un soir, quelqu'un, comme pour toutes, te
viendra prendre sur le seuil au milieu d'un
grand cortege de tympanons sonores et de
flutes amoureuses.

Ce soir-la, quand tu t'en iras, Bilito, tu
me laisseras trois gourdes de fiel: une pour
le matin, une pour le midi, et la troisieme,
la plus amere, la troisieme pour les jours de
fete".

Na tradução de MariaJosé de Carvalho:

Palavras Maternas

Minha mãe banha-me no escuro, veste-me em pleno sol e penteia-me à luz da lâmpada. Mas, quando saio ao luar, ata-me o cinto com duplo nó.

E me recomenda: "Brinca com as donzelas, dança com as crianças. Não te ponhas à janela. Foge à palavra dos jovens e teme o conselho das viúvas.

Uma noite, à porta, em meio a grande cortejo de sonoros tímpanos e amorosas flautas, alguém te virá buscar.

Nessa noite, quando te fores, Bilitô, deixar-me-ás três frascos de fel: um para a manhã, outro para o meio-dia e o terceiro, o mais amargo, para os dias de festa".


sábado, 20 de junho de 2009

O manto púrpura de Eros

Desde já aviso que a postagem só vai interessar aos helenistas ou assemelhados.

] ἔλθοντ' ἐξ ὀρανω πορφυρίαν περθέμενον χλάμυν [

Um fragmento de Safo que traz toda a complexidade da poetisa. A palavra περθέμενον, seria, a princípio, o particípio presente do verbo πέρθω ou περθώ no acusativo masculino singular e que se traduz por destruir e é aplicado, particularmente, em cidades. Destruir ou saquear uma cidade. É uma variante de πορθέω, que se pode traduzir, também, por tomar uma cidade após um cerco. A forma usual do verbo deveria ser περθόμενον, mas o eólico, o dialeto em que a poeta escrevia, frequentemente trocava as vogais, o que explicaria a presença do ε no lugar do o. No entanto, περθέμενον é traduzida pelos helenistas como envolta, envolvida. A tradução da frase toda é esta:

vindo do céu envolto em manto púrpura

O que nos leva ao verbo περιτίθημι, por ao redor, no caso, envolver. Sendo, de fato, uma flexão desse verbo ( e não de περθώ ), περθέμενον, ainda o mesmo particípio, portanto com valor e comportamento de um nome, já traz uma contração maior dos elementos da palavra, no caso, do infinitivo do verbo, onde podemos perceber a supressão do ι final do prefixo περι (que significa, no geral, ao redor, como no português perímetro) e o τι inicial de τίθημι, palavra fundamental e que se traduz por colocar. Verificamos, também, a troca da vogal longa η pela breve ε. Tudo isso é bastante comum no eólico, que se falava em toda a região mais ao norte da Hélade e que os poetas lésbicos ajudaram a fixar.

A complexidade sáfica, a que me referi anteriormente, vem do eterno jogo de palavras. Ora, περθώ também é utilizada, na poesia, como destruir ou matar de amor. Quem mata de amor é Eros, como no Hipólito de Eurípedes:

"Debalde a Grécia, ao pé de Alfeu, ou na ara do loiro Apolo Pítio, vítimas acumula; se não honrarmos a Amor, dos homens senhor altivo, filho da deusa do mar nascida, que tem a chave dos doces tálamos, mas que devasta com triste ruína os que acomete."
ἄλλως ἄλλως παρά τ' Ἀλφεῶι
Φοίβου τ' ἐπὶ Πυθίοις τεράμνοις
βούταν φόνον Ἑλλὰς ἀέξει,
Ἔρωτα δέ, τὸν τύραννον ἀνδρῶν,
τὸν τᾶς Ἀφροδίτας
φιλτάτων θαλάμων κληιδοῦχον, οὐ σεβίζομεν,
πέρθοντα καὶ διὰ πάσας ἱέντα συμφορᾶς
θνατοὺς ὅταν ἔλθηι.
É Eros também que desce do céu envolto em um manto púrpura. A púrpura, corante extraído de moluscos do mesmo nome, era caríssimo e, no império romano, sinônimo das vestes dos césares.

'Destruindo o manto púrpura' não é uma opção possível, mas que Safo faz aí um jogo de palavras não duvidaria.

E há, ainda, o outro jogo, fonético, lindo: πορφυρίαν περθέμενον χλάμυν
porfurían perthémenon chlámun.

domingo, 3 de maio de 2009

João Nogueira



Súplica

(João Nogueira e Paulo César Pinheiro)

O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza

A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
E ilumina a gente além da morte

Vem a mim, ó música!
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única
Vem a mim, ó música!
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já
Sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Virgens de fogo


















Tal à doce maçã,
que enrubesce-se
acima, nos mais altos ramos,
bem lá no alto, intocada.
_Esqueçeram-na os catadores!
Não, em absoluto.
Não a puderam alcançar.


οἶον τὸ γλυχύμαλον
ἐρεύθεται ἄχρωι ἐπ' ὔσδωι,
ἄχρον ἐπ' ἀχροτάτωι, λελάθοντο
δὲ μαλοδρόπηες·
ὀν μὰν ἐχλελάθοντ' , ἀλλ' οὐχ
ἐδύναντ' ἐπίχεσθαι.


variação sobre um fragmento de Sapho.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sapho e a maestria das palavras

Tenho vontade de investir na tradução dos versos de Safo. Tradução talvez não seja a palavra correta, mas recriação, variação, transcriação sejam mais adequadas. Quase tudo o que restou são fragmentos inteiramente desfigurados. Lapsos, ausências, fendas, frinchas, interstícios. Onde vagueia a imaginação. Há, também, o eólico estranho e o uso que faz das figuras de linguagem, notadamente os muitos sentidos possíveis de algumas palavras e a constância de neologismos.
No fragmento de poema abaixo, a palavra ὄσσοις (óssois) é o dativo do irregular dual ὄσσε (ósse), que significa 'os dois olhos'. O dual é um terceiro número, relativamente pouco usado, pois tem a concorrência do plural, e que serve para designar seres ou coisas que aparecem em pares, como os famosos gêmeos, filhos de Zeus e Leda e irmãos de Helena e Clitemnestra , Castor e Pólux, ou as mãos, as pernas, um casal, dois amigos, etc. No entanto, há a palavra ὅσσοις (hóssois), onde o primeiro sinal ῾ é uma marca de aspiração da vogal, como o h da língua inglesa, ou os nossos rr. A palavra é uma declinação de ὅσος ou ὅσσος, cuja principal tradução é um advérbio, quanto/quão/tanto/tão. Como advérbio, em grego, apenas flexiona-se em gênero: masculino, feminino e neutro. Mas pode ter muitos outros significados e funções declináveis. Daí a complexidade, que não cabe expor aqui, mesmo porque não tenho a competência para isto.

Assim, após esta introdução enfadonha, mas necessária, o poema:

στᾶθι χἄντα φίλη*
χαὶ τὰν ἐπ' ὄσσοις' ὀμπέτασον χάριν


(stàthi chánta phílee

chai tàn êp (i) óssois (i) ompétason chárin)
Que transcrevi assim:
diante a mim, amiga, fique
e envolva-me com a graça de teus olhos

Como estava dizendo sobre os duplos sentidos das palavras sáficas, poder-se-ia transcrever o poema assim, utilizando-se o vocábulo tamanha como adjetivo de graça, como se os olhos do amigo* fossem e significassem um tanto de coisas?
diante de mim, amiga, fique
e envolva-me com tamanha graça
Na verdade não. ὄσσοις está no dativo/masculino/plural e χάριν - graça - no acusativo/feminino/singular. A primeira não poderia qualificar a segunda. Em grego, o adjetivo acompanha o caso em que está o substantivo. No entanto, me parece, fica ainda o duplo sentido, a insinuação. Safo era mestra nisso.

Acho que hoje abusei da paciência de meus leitores. Vou ter que acabar criando um outro blog, só para os poemas de Safo.

* No original φίλος, amigo. Tomei a liberdade de, neste caso, alterar o gênero.


sábado, 13 de dezembro de 2008

Vieste
















Vieste e eu te ansiava.
Meu coração,
queimando há muito
de desejo,
serenaste.

ἤλθες ἔγω δὲ σ' ἐμαιόμαν
ὂν δ' ἔψυξας ἔμαν
φρένα χαιομέναν
πόθωι
Sapho (variação livre minha)

sábado, 22 de novembro de 2008

Sapho



















As palavras de Safo,
fragmentadas em pedaços resistentes de papiros,
complementadas por citações em manuscritos outros,
antigos,
intercaladas de silêncios,
nos falam através de enigmas.
Formam mais de um possível pensamento.
Reservam, para nós, o preenchimento;
tornam-se outras.
Variações, como diz Brasil Fontes.
O grande barato são os espaços vazios,
onde colocamos a nós mesmos.
É ali que a poesia dança.

Enamorei-me de ti Átis.
Foi há muito:
pequena criança,
a mim
feia (a)parecias...


Ἠράμαν μὲν᾽Éγω σέθεν,
Ἄτθι, πάλαι ποτά
σμίχρα μοι πάις
ἔμμεν ' ἐφαίνεο
χἄχαρις


terça-feira, 14 de outubro de 2008

coroai-me de rosas, maria...






















Coroei-te de rosas senhora, inda
os espinhos, que se me perfuravam os dedos...

Os certamente centenas de milhares de milhares de poemas escritos para se coroar alguém me fazem pensar: O que é coroar alguém de flores? Tecer uma grinalda com hastes e galhos e botões, costurando as fibras, os talos; uma arte. Arte perdida certamente. Ou quase. Quem hoje em dia sabe a técnica de se tecer uma coroa de flores? Na internet, procurando-se, nada se acha. Tenho vontade de conseguir as flores e tentar tecê-las. Tranças de três fios que são fáceis.
Bouganvilles, boninas, jatobás-mirins.
Mas e as rosas? Como pode ser possível trançar uma coroa de rosas sem se furar os dedos todos de espetadas? Os galhos das rosas são totalmente espinhentos...
e duros, e rígidos; não se vergam e os espinhos são fortes; não é à toa que os melhores cachimbos são feitos de galhos de roseira.
De forma que tecer-se uma coroa de rosas há de ser uma obra de arte.
Certamente que alguma outra estrutura vegetal deve servir de base para se entrelaçar as rosas, o que se deve fazer utilizando-se, seguramente, seus próprios espinhos. Mas para tal deve ser necessária uma grande dose de talento e arte.
Primeiramente para não sair logo de cara se espetando nos espinhos. É preciso conhecer a maneira de segurar o talo da roseira sem se ser ofendido pelo espinho.
Depois, há de se saber o lugar certo de cortá-la de forma a se poder aproveitar o desenho do galho e a direção da floração. Se bem que esta segunda parte é secundária, ou não.
Para isso, só se me afigura possível com o auxílio de uma segunda planta que, a princípio, deveria ser algum tipo de trepadeira. Ou seja, uma planta flexível,
onde se amarrariam, de forma agradável ao olhar e ao vestir-se, a grinalda. Ou seja, ela não deveria espetar quem a segurasse e nem parecer desarmoniosa aos que a vêem.
E aí entra toda a coisa do desenho, da escultura e da pintura. Esta no que diz respeito às cores das diversas qualidades de flores, e as nuances.
Em Pindorama eram as penas de mutuns, uirapurus, araras, cores iridescentes. As coroas de flores de nossos índios eram os endoapes.
Mas, voltando às rosas, havia de ser uma grande demonstração de amor e sacrifício tecer-se uma coroa com a rainha das flores, que certamente devia ferir bastante os dedos.
Mas havia algo mais nesse ritual de tecer e coroar. Era uma espécie de celebração da beleza e da vida, um culto também à natureza, à madre-terra.

Se não, vejamos em Anacreonte a relação das flores, especialmente das rosas rubras, com o vinho, com o amor e com as festas a Baco. Algumas invocações em fragmentos:

"A rosa dos amores
A Baco misturemos!
De rosas coroados
A taça levantemos!
O riso sobre os lábios,
Bebamos sob as rosas!
Rosa, glória das flores,
Da primavera encanto,
Mimo dos próprios deuses,
Nas cores volutuosas!
Ergamos nossas taças.
Bebamos sob as rosas!
Se o filho de Afrodite
Vai, na dança ligeira,
Dançar em meio às Graças,
Tu, rosa, estás-lhe ornando
A bela cabeleira!...
Oh! já! Trazei mimosas
Coroas! Soem liras!
Fronte cheia de rosas,
Eu vou dançar, Dionissos
Com a rapariga nova,
Os véus a voar nos ares,
De seios tremulantes,
Em torno aos teus altares!"

"Todos, coberta a fronte
De rosas -- rubra orgia --
Oh! vamor rir, bebendo
O vinho da alegria!"

"_Com a primavera coroada,
Louvor à rosa delicada!
Junta-te, amiga, a estes meus cantos!"

"_Do artista é objeto dos cuidados
Entre os discursos que ela excita.
Planta das Musas, delicada,
É doce até por seus espinhos,
Quando nos ferem nos caminhos
Flóreos, estreitos e aculeosos...

_Doce é, nas mãos tendo-a, aquecê-la
Com dedos moles, voluptuosos...
Ó suave flor! terna e ligeira
Incendedora de amores..."

_traduções de Almeida Cousin






















Ou entre as ruínas dos amorosos versos de Safo, as flores, os cantos, as danças, as tecituras:

frag. 8
] a morte - sim a a morte eu prefiro:
ela me deixava, e entre muitas
-------------

lágrimas falava [
Ah! quanto nós sofremos,
Psappho! contra a vontade, eu te abandono!
-------------
e eu lhe respondi, então:

vai na alegria, e guarda-me na lembrança:
sabes bem como nos prendemos a ti,
-------------
não sabes? Pois quero retirar
do esquecimento, para ti [ ] [ ]..
..[ ] quanto somos felizes,
-------------

e tan[tas grinaldas] de r[osas],
de aça[frão] e violetas
..[ ] a meu lado tecias,
-------------
e tantas guirlandas
[ ] no teu colo suave,
de flores trançadas [
-------------
e..tanto perfume de flor
preciosas [ ]..[ ].
ungias; feito para rainhas;
-------------
e, sobre um leito macio,
o desejo saciavas [ ]
por [

frag. 21
o doce feitiço destes cantos
eu vou tecer para as amigas


frag.30
antigamente, era assim que dançavam
a essa hora, as mulheres de Kreta;
ao som da música, ao redor do altar sagrado
dançavam, calcando sob os pés delicados
as flores tenras da relva

frag. 39
[poikíletai mèn
gaîa polystéphanos]

a terra coroada de flores,
trama de cores e brilhos

frag.42
entrelaça, com as mãos delicadas, guirlandas
de ramos de anis, e enfeita, ó Dika,
teus lindos cabelos; fogem as Khárites divinas
da moça que vem sem guirlandas, pois gostam

das preces trançadas no brilho das cores [

frag.43
] uma linda menina colhendo flores [

frag.44
] as meninas em flor

entrelaçavam guirlandas de flores [

-Todos os fragmentos são numerados de acordo com J.B.Fontes - Variações sobre a lírica de Safo - Estação Liberdade - 1992



Não sei se pelo tempo em que viveram o poeta e a poetisa, mas havia, certamente, uma relação mais íntima com a natureza. Hoje em dia nos parece, talvez, excessivamente 'florida' suas composições.
Mas somos nós que estamos por distante demais das flores, não?
Bem, as coroas, pelo menos, só as usamos nos cemitérios, por sobre os caixões.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Um sáfico a ela que sumiu























E se você sentou-se assim de frente
Só a fitar-me e a me fazer fitar-te,
Foi que agradou-te o meu olhar ardente
E a mim a arte,

Que do teu rosto luz à toda parte,
E me deixou no coração fremente
Um palpitar, um troço, um quase enfarte.
Mas que contente!

Durou bem pouco o sonho, pois, que a gente,
Que nada tem a ver co'o nosso à parte,
Interferiu no amor assim nascente
Ao afastar-te.

Só de Afrodite ou da sidônia Astarte
Espero o auxílio ao coração que sente
A ausência tua; quando ao invés de amar-te
Se faz silente.

domingo, 14 de setembro de 2008

Um gosto

Algumas pessoas me acham um pouco louco por causa de coisas como estudar o grego antigo; outros, a maioria, acham-me apenas um tolo. Se me perguntam: _ Para que estudar uma língua morta, ó seu bobo? Respondo: _ Porque eu gosto.
Na verdade, não sei o porque estudo a língua de Homero. Talvez porque goste ou me identifique, de alguma forma, com o helenismo. Não é isso grande novidade; não foi por pouco tempo que se estudou o grego e o latim nas escolas. Hoje vivemos uma época não diria anti-clássica, mas a educação de massa parece que precisou botar de lado certos conteúdos em função de outros; e o classicismo pagão foi um desses outros. O que não passa de política educacional; quando tenho falado sobre episódios do ciclo troiano a meus alunos (por causa de Os Lusíadas) eles quase todos sempre mostram-se interessados. Também é impossível não se interessar pela mitologia helênica. Os gregos eram mestres para inventar e contar histórias. Há uma personagem que me vem à lembrança agora que é a Fama. Diz a lenda que antes mesmo de se iniciar a batalha de Mícale, já a notícia da vitória em Platéia havia alcançado as forças gregas (diz-se que as duas batalhas se deram no mesmo dia, uma de manhã, outra à tarde) que se preparavam para dar combate aos persas na costa jônica, onde pretendiam libertar as colônias gregas dali do jugo de Xerxes. Como não havia possibilidade da notícia atravessar o Egeu em pouco mais de duas horas, diz-se que foi a Fama que a levou. Essa notícia estimulou muito os soldados gregos e foi uma das causas dessa outra vitória, que inaugurou o poderio de Atenas no Egeu e o império que foi curto mas que longas consequências trouxe à civilização ocidental. Acho impressionante tais criações mentais: uma deusa, a Fama.

Estudo o grego porque gosto. No momento tenho tido excelentes horas de prazer com a poesia de Safo. Verter para o português o poema sáfico, conseguindo preservar, ao mesmo tempo, o conteúdo e a estrutura é muito gratificante. Ainda que do grego para o português tenhamos que transformar o ritmo quantitativo em acentual. O que é outra viagem de prazer, hehehe.

Na verdade, entendo muito pouco de literatura. Só agora é que me dou ao trabalho de estudar com alguma profundidade a expressão poética em sua complexidade; conceitos como os de adônio, troqueu, dátilo, cesura e icto, entre muitos outros, só agora descobri a existência e estou a estudar e a gostar muito.

Se não, vejamos como se pode inovar naquilo que já tem mais de 2500 anos.
Há pouco mais de um mês, publiquei aqui no blog, uma tradução que fiz de uns versos sáficos muito conhecidos, que entitulei "Ode a uma donzela". Fiz a tradução com o apoio do dicionário, é claro, e de algumas velhas traduções para o inglês. Há alguns dias encontrei várias traduções desse poema para o português. Vejam vocês a riqueza e a variedade de traduções (há muitas mais) deste poema que, segundo dizem, foi dedicado à Atis:

O original

Fr.2

Φαίνεταί μοι κήνος ἴσος θέοισιν
ἔμμεν ὤνηρ, ὄστις ἐναντίος τοι
ἰζάνει, καὶ πλυσίον ἆδυ φωνεύ-
σας ὑπακούει

καὶ γελαίσας ἰμερόεν, τό μοι μάν
καρδίαν ἐν στήθεσιν ἐπτόασεν·
ὡς γὰρ εὔιδον βροχέως σε, φώνας
οὺδὲν ἔτ' εἴκει·

ἀλλὰ κὰμ μὲν γλῶσσα ἔαγε, λέπτον δ'
αὔτικα χρῷ πῦρ ὐπαδεδρόμακεν,
ὀππάτεσσι δ' οὐδὲν ὄρημ', ἐπιρρόμ-
βεισι δ' ἄκουαι.

ἀ δέ μίδρως κακχέεται, τρόμος δέ
παῖσαν ἄγρει, χλωροτέρα δὲ ποίας
ἔμμι, τεθνάκην δ' ὀλίγω 'πιδεύης
φαίνομαι [ἄλλα].

ἀλλὰ πᾶν τόλματον, [ἐπεὶ καὶ πένητα].


Para o inglês

Blest as the immortal gods is he,
The youth who fondly sits by thee,
And hears and sees thee all the while
Softly speak and sweetly smile.

'Twas this deprived my soul of rest,
And raised such tumults in my breast;
For while I gazed, in transport tost,
My breath was gone, my voice was lost:

My bosom glowed; the subtle flame
Ran quick through all my vital frame;
O'er my dim eyes a darkness hung;
My ears with hollow murmurs rung.

In dewy damps my limbs were chilled;
My blood with gentle horror thrilled;
My feeble pulse forgot to play;
I fainted, sank, and died away.

Ambrose Philips, 1711


Para o português, das quais não encontrei o(s) autor(es) das traduções

"Parece-me igual aos deuses
ser aquele homem que, à sua frente sentado,
de perto, doces palavras, inclinando o rosto,
escuta,

e quando te ris, provocando o desejo; isso, eu juro,
me faz com pavor bater o coração no peito;
eu te vejo um instante apenas e as palavras
todas me abandonam;

a língua se parte; debaixo da minha pele,
no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos me vêem; zumbem
meus ouvidos

um frio suor me recobre, um frêmito me apodera
do corpo todo, mais verde que
as ervas
eu fico
e que já estou morta
parece (...)
Mas (...)".


Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.

Quando imagino em tal gosto
ë minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.

Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.

Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar.





Igual aos deuses me parece
quem a teu lado vai sentar-se,
quem saboreia a tua voz
mais as delícias desse riso.

quem me derrete o coração
e o faz bater sobre os meus lábios.
Assim que vejo esse teu rosto,
quebra-se logo a minha voz,

seca-me a língua entre os dentes,
corre-me um fogo sob a pele,
ficam-me surdos os ouvidos
e os olhos cegos de repente.

Torna-se líquido o meu corpo:
transpiro e tremo ao mesmo tempo.
Vejo-me verde: mais que a erva.
Só por acaso é que não morro.



O ciúme

Parece-me igual aos deuses
o homem que, diante de ti e próximo,
escuta a tua doce voz e o teu
riso amorável. Isso faz-me

tumultuar o coração no peito. Na verdade,
basta-me ver-te para que
a voz me falte, a língua
se me fenda e um repentino

fogo subtil alastre
sob a minha pele, os olhos
se me escureçam, os ouvidos
me zumbam, o suor

me inunde, um arrepio
me percorra toda. Fico
mais verde do que a erva. Sinto
que vou morrer.

Mas tudo é suportável, desde que humilde.


E a minha

Ode a uma donzela

Parece a mim que semelhante aos Deuses
é aquele homem que ante ti se senta
e perto então de ti a tudo atenta
no quanto dizes

e em tua graça. E tal que se desnuda
o coração que me estremece ao peito,
pois o instante em ver de ti tal jeito
quedou-me muda.

Se finda enfim calou-me a língua ao fundo,
já um grácil fogo à pele irrompe e a(s)cende,
e os olhos turvos, sons que não se entende:
tudo confundo!

Ah! o suor escorre e é também fremente
o corpo todo; e a palidez me toma
[e tal à seca relva a morte assoma],
de tão carente.

E [inda pobre], corajosa em tudo.

Ps. A exclamação em "tudo confundo!" resolvi depois.



Como se pode ver, as possibilidades são muitas em se fazer a tradução. Vou traduzi-la outra vez em breve. Há coisas que não gostei, que fugiram um pouco da sentido original. Para isso estou investindo na aquisição de alguns livros. No entanto, há coisas de que gostei, como ter conseguido preservar os adônios típicos da estrofe sáfica. Explicando melhor: O adônio é aquele quebrado que encerra a estrofe e que é formado de um dátilo (uma longa e duas breves) e um troqueu (uma longa e uma breve) ou espondeu (duas longas); cinco sílabas portanto. Na tradução, ainda não sei bem o porque, decidi por uma tônica na quarta sílaba do quebrado adônico, como em 'tudo confundo' e 'de tão carente'. Esta parte eu gostei e deu muito trabalho.

Bem, gosto de estudar o grego pela poesia. Seja lírica, como a sáfica; trágica, como em Ésquilo; a épica de Homero; ou o cômico Aristófanes. Em Pompéia, nos meados do século XVIII, encontrou-se fragmentos de alguns poemas de Safo. Não estou bem certo, mas entre esses estava a "Ode a Afrodite".
Se encontrarem mais poesia em Herculano será muito bem vinda. A beleza não tem idade, é coisa que brilha por dentro.

sábado, 16 de agosto de 2008

A bela Safo
















Outra tradução que faço
da divina Safo.

O grego não rima a poesia. O jogo se faz pelas sílabas longas e breves, que não fazem sentido em português. Daí me permiti rimar os versos.
O título também é meu, já que o original só traz o número 2 do fragmento.

As mulheres entendem perfeitamente.

Ode a uma donzela

Parece a mim que semelhante aos Deuses
é aquele homem que ante ti se senta
e perto então de ti a tudo atenta
no quanto dizes

e em tua graça. E tal que se desnuda
o coração que me estremece ao peito,
pois o instante em ver de ti tal jeito
quedou-me muda.

Se finda enfim calou-me a língua ao fundo,
já um grácil fogo à pele irrompe e a(s)cende,
e os olhos turvos, sons que não se entende:
tudo confundo.

Ah! o suor escorre e é também fremente
o corpo todo; e a palidez me toma
[e tal à seca relva a morte assoma],
de tão carente.

E [inda pobre], corajosa em tudo.

domingo, 13 de julho de 2008

ode a afrodite






















Meus conhecimentos do grego antigo ainda são muito superficiais, o que não poderia deixar de ser, pois só o estudo há coisa de um ano e meio.
No entanto, me permiti esta tradução, que deixo aqui no blog. Foram três semanas de embates com o eólico de Safo, com o qual não estava acostumado, nem ainda estudado. Ainda que as diferenças se dêem, principalmente, na ortografia das vogais, há os casos de contrações, que, por conseguinte, também se processam de forma diferente do ático. Também notei os redobros de consoantes, tais como o sigma e o rô, entre outros fenômenos que são próprios do grego épico e mais antigo. Não foi possível manter a estrofe sáfica. Mesmo porque ainda sou neófito com a versificação e a métrica. Fiquei satisfeito em ter obtido os quatro versos por estrofe, coisa que, ainda que tenha dado trabalho, foi compensador. Espero não ter feito muito feio. Estou aberto às críticas e sugestões das centenas de estudantes de grego antigo e helenistas que visitam estas paragens.


"Ποικιλόθρον', ἀθάνατ' Ἀφρόδιτα,
παῖ Δίος, δολόπλοκε, λίσσομαί σε
μή μ' ἄσαισι μήτ' ὀνίαισι δάμνα,
πότνια, θῦμον·

ἀλλὰ τυῖδ' ἔλθ', αἴποτα κἀτέρωτα
τᾶς ἔμας αὔδως ἀΐοισα πήλυι
ἒκλυες, πάτρος δὲ δόμον λίποισα
χρύσιον ἦλθες

ἄρμ' ὐποζεύξαισα· κάλοι δέ σ' ἆγον
ὤκεες στροῦθοι περὶ γᾶς μελαίνας
πύκνα δινεῦντες πτέρ' ἀπ' ὠράνω αἴθε-
ρας διὰ μέσσω.

αἶψα δ' ἐξίκοντο· τὺ δ', ὦ μάκαιρα,
μειδιάσαισ' ἀθανάτῳ προσώπῳ,
ἤρε', ὄττι δηὖτε πέπονθα κὤττι
δηὖτε κάλημι,

κὤττι μοι μάλιστα θέλω γένεσθαι
μαινόλᾳ θύμῳ· τίνα δηὖτε Πείθω
μαῖς ἄγην ἐς σὰν φιλότατα, τίς σ', ὦ
Ψάπφ', ἀδικήει;

καὶ γὰρ αἰ φεύγει, ταχέως διώξει,
αἰ δὲ δῶρα μὴ δέκετ' ἀλλὰ δώσει,
αἰ δὲ μὴ φίλει, ταχέως φιλήσει
κωὐκ ἐθέλοισα.

ἔλθε μοι καὶ νῦν, χαλεπᾶν δὲ λῦσον
ἐκ μεριμνᾶν, ὄσσα δέ μοι τελέσσαι
θῦμος ἰμέρρει, τέλεσον· σὺ δ' αὔτα
σύμμαχος ἔσσο."

(Σαπφοῦς)


"Imortal Afrodite, de bem talhado trono,
filha de Deus, tecedora de intrigas,
rogo-te: não subjugues com dores e culpas,
Deusa, a minh' alma!

Mas vem a mim! pois nem outrora, quando
ao longe, os meus clamores escutando,
quizeste, de teu pai, deixar a casa
em tua áurea carruagem.

Os belos e mui velozes pardais
conduzem-te por densas vastidões,
em meio ao firmamento, de infi-
nito éter.

Logo chegando. E oh, tu, a mais feliz,
sorrindo em tuas faces sempiternas,
perguntas-me agora o que sinto,
e porque agora o meu apelo,

E o que mais quer o meu coração
aflito ver. Qual queres que, das belas,
ao temível amor convença, oh Safo,
qual que te rejeita e injuria?

Pois que se foge, te tão logo segue,
e se presentes recusa, logo os dará,
e se ainda não ama, em breve amará,
ainda que o negue.

Agora vem! De dor e anseios livra-me
e o quanto a alma, a completude anseia
há tanto, dê-lho, e sê, de mim,
amiga enfim."

(Safo)


Tradução de Josaphat Neto.
Fiz consultas em:

_Safo lírica, de Haddad, Jamil Almansur, Ed. Cultura, S.Paulo, 1942 e
http://classicpersuasion.org/pw/sappho/sape01u.htm#fr001

sábado, 5 de julho de 2008

Helenismo - Ártemis






















Tenho andado rodeando Safo e Anacreonte. Este, há mais tempo, essa por agora. Tenho tentado umas traduções, mas a coisa é muito lenta, ainda estou engatinhando o grego. Por enquanto fica um mestre.

de Safo

Em torno à Silene esplêndida
os astros
recolhem sua forma lúcida
quando plena ela mais resplende
alta
argêntea

Morto o doce Adônis,
e agora,
Citeréia,
que nos resta?
Lacerai os seios,
donzelas,
dilacerai as túnicas.
.
(tradução de Haroldo de Campos)

Aqui, a segunda estrofe, em grego:


Κατθνάσκει, Κυθέρη', ἄβρος Ἄδωνις, τί κε θεῖμεν·
καττύπτεσθε κόραι καὶ κατερείκεσθε χίτωνας.


Diz a lenda que Ártemis teria morto a Adônis,
mortal mais amado pela Cíterea
Afrodite de longos cabelos.
O fez por ter a deusa do Amor
matado a Hipólito,
por vingança.

Hipólito, filho do primeiro casamento de Teseu com a rainha amazona Hipólita, era adorador da deusa Ártemis, irmã de Apolo, o Sol, a padroeira das matas e da caça, a Lua. Era ela, também, conhecida pela castidade. Hipólito, assim, devoto da deusa, seguia seus preceitos de vegetarianismo e castidade. Afrodite passou a odiá-lo, pois que o jovem insistia em negar-lhe devoção, nem mesmo simples oferendas. Ele a desprezava.
Pois a deusa do Amor, em vingança, tramou uma situação em que Hipólito, sem o saber, despertou o amor de Fedra, atual esposa de seu pai e, portanto, sua madastra. Esta, outra vítima da Cípria (um dos epítetos de Afrodite), acaba se suicidando, para evitar a vergonha por ter seu amor sido descoberto pelo amado, que o rejeita violentamente, e pela inevitável condição de adúltera diante do marido, Teseu. Antes de se matar, deixa um bilhete, numa plaquinha de madeira, onde acusa Hipólito de tê-la violentado. Teseu, lendo o bilhete, tirado das mãos da esposa morta, infla-se de ódio e indignidade pelo filho e, para não matá-lo, exíla-o da cidade, além de rogar-lhe uma praga de morte, pedida a seu protetor Poseidon, que o atende matando a Hipólito. Ártemis então, revela a Teseu a intriga de Afrodite e promete-lhe, em sua dupla dor, da perda da amada e, da injustiça praticada contra o filho, vingar-se, matando a Adônis, preferido de Afrodite.
A história, do ciclo heróico, faz parte da história da cidade de Atenas, sendo Teseu, um de seus mais conhecidos reis.
O resumo que fiz acima é horrível. A história sempre se repete e, o que conta, é a maneira de contá-la. Por isso os gregos repetiam tantas vezes as mesmas. Aliás, continuam sendo repetidas. A história se repete, repito.
Eu não sou um bom contador, mas para quem se interessar por uma história bem contada, há uma versão online, da clássicos jackson, do "Hipólito" de Eurípedes, aqui.
E da "Fedra" de Racine, da mesma coleção, aqui.
Ambas em português.

Mais uma postagem abobrinha.

Provérbios gregos