sábado, 22 de novembro de 2008

Sapho



















As palavras de Safo,
fragmentadas em pedaços resistentes de papiros,
complementadas por citações em manuscritos outros,
antigos,
intercaladas de silêncios,
nos falam através de enigmas.
Formam mais de um possível pensamento.
Reservam, para nós, o preenchimento;
tornam-se outras.
Variações, como diz Brasil Fontes.
O grande barato são os espaços vazios,
onde colocamos a nós mesmos.
É ali que a poesia dança.

Enamorei-me de ti Átis.
Foi há muito:
pequena criança,
a mim
feia (a)parecias...


Ἠράμαν μὲν᾽Éγω σέθεν,
Ἄτθι, πάλαι ποτά
σμίχρα μοι πάις
ἔμμεν ' ἐφαίνεο
χἄχαρις


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Poema ufanista revisitado

















Filhas e Filhos do Kosmos...
... e de Tupis e Áfricas sagradas,
e hermosos Portugais
nós somos.
Proliferam-se as flores
e abelhas e rosas.
De antas, e pacas, tatus;
Xavantes, Tapuias e sárx;
entre estes, todos
ocultaram-se à visualização
das "xaves" helênicas orgânicas.
E de atlântidas-sumérias e
de sulaméricas-fenícicas-floraclóricas
nos fizemos.
E com atos e efeitos serumanominais e
tão sublimes
quanto
os Átenas e Dórios,
todos tortos;
também tosaram
os cabelos de Astartês
dos sertões, e de
Diadorins e Tróias abundantes;
e Ártemis e
Deméters sagradas.
Chega a onda
que vem de longe
e geme no tempo,
e Tétis não
pode pará-lo,
impedi-lo de
levar-lhe embora
o adorado guerreiro,
Tupi de tao bugre
história.
De Ílio tão
antiga como a anta,
como yara, ou uiara,
ou aiuuiara,
sereia, sirene, Silena.
Helena, de belas luas-madeixas,
e queixas de pedidos,
com toques nos queixos tão lindos,
os toques e gestos faceiros,
nas faces sublimes quão
já, servil e sedudora Rainha,
sujeita Páris, Heitores e Aquiles,
e Menelaus na rinha.
E de estar-se sujeita
ao cio da Terra, que
a Lua, de novo,
empurra
às antigas e novas
freqüencias de
Frânciscas-Fenícicas
Guilhotínicas luzes,
declarações e
testamentos; dizem,
que a história do mundo
inda é torpe por demais,
e vil.
O resto da história
cabe ao Brasil.

Poema megalomaníaco.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Se não foi um ciclone, o que foi?

Estou em fase vazia. Trabalhando muito. Quase estressado com a escola da tarde; os jovens, claro. Por isso poucas palavras. Hoje à noite pude presenciar pela primeira vez algo parecido ao que se poderia chamar de um ciclone. As árvores vergaram até o chão. Muitas foram arrancadas pela raiz. Uma parte imensa da cidade ficou sem luz. Vários alagamentos. Postes tombaram e transformadores explodiram. Telhas voaram. Fiquei bastante impressionado.

domingo, 16 de novembro de 2008

A San Felice

















Terminei de ler "A San Felice". Gostei. Dizem ter sido considerado pelo autor como o melhor dos seus últimos dez anos de vida. Mas, no meu projeto de ler a obra completa de Dumas Pere, onde ainda estou nos primeiros passos, não tenho dúvida: "Memórias de um médico" é o mais tocante. Uma epopéia de 25 anos que antecede e finaliza no terrível ano de 1793. Acho que foi o livro que mais me tocou entre todos os que li. E olha que há, na disputa, Homero, Dostoievsky, Victor Hugo, os atenienses, o Rosa e outros menos conhecidos. Já disse aqui antes: Não sei porque adoro as tragédias.
Mas voltemos à "San Felicie". A história se dá durante os preparativos e instauração da República Partenopéia e da restauração, logo em seguida, da monarquia bourbônica no Reino das Duas Sicílias, que para quem não sabe, ocupava a ponta sul da península itálica, de Nápoles até Malta. Fernando IV, um rei medíocre, e Carolina, rainha de personalidade forte ( a verdadeira monarca), como todas as Habsburgos. Dumas faz o que se pode chamar de 'romance histórico'. O principal do enredo é histórico, mas entre os heróis, um é fictício: Salvato Palmieri. Dumas também modifica a história pessoal de Luisa San Felice para poder adequa-la ao romance com Salvato. Sua morte trágica, no entanto, foi real. É interessante como Dumas desenvolve seus romances basicamente em descrições e narrações. Há relativamente poucos diálogos. E, o que mais me chama a atenção, o pouco interesse (proposital?) no mundo interior dos heróis e heroínas. Neste livro, chega ao ponto de tornar mais interessantes os personagens secundários ou mesmo os vilões. O Rei Fernando, um completo escroque, chega a se tornar interessante. O mesmo com Maria Carolina, figura definitivamente inferior à sua irmã Maria Antonieta. Ou mesmo o Cardeal Rufo, que apesar de honesto, cometeu um desserviço à humanidade; aquela história que de boas intenções o inferno está cheio. Todos personagens nos quais o autor se detem por muitas mais vezes que em Luisa ou Salvato.
Mas termina o livro com ela. É impressionante, também, como com apenas uma frase a personagem se nos mostra inteira como é. Quando ela, já no cadafalso, se ajoelha sobre o cepo e pergunta ao medonho carrasco: _Assim está bom, assim está, senhor? Oh, por favor, não me faça sofrer! A gente se dá conta que a nossa heroína era uma moça de 23 anos, delicada e apavorada com o que lhe estava acontecendo. A forma como se dá a sua morte é terrível. Mas quem quiser saber que leia o livro.
Agora, para não deixar de lado outro projeto (a literatura francesa), estou lendo "O homem que ri", de Victor Hugo. Já nas primeiras páginas achei maravilhoso. A narração do encontro da criança com o enforcado e a visita dos corvos é extraordinária.
Ah, os livros, quase tudo que me resta!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ainda Alejandra Robles

Para quem ainda duvida do talento da moça.

sábado, 8 de novembro de 2008

Coração pã-americano, Alejandra Robles, ou eis gunaikás...






















Leio bem o espanhol, mas para escrever e falar sou um desastre. Ainda assim...
Esta chica es mui guaca. Y su banda tambien. Viva America!



As verdadeiras artistas e os artistas também me emocionam muito. Principalmente no nascituro. Essa moça é das grandes.
Que a Deusa a tenha!
E Deus a eles.
Tudo é por demais...

Whitman feliz

E como uma coisa concatena a outra e gosto e divulgo a boa poesia, da tradução de Geir Campos:

Democracia!
Junto a você, ao alcance da mão,
há agora uma garganta
que infla e canta com alegria.

Ma femme!
Pela ninhada nossa e além de nós,
pelos que já são daqui
e pelos que estão por vir,
eu, exultante de estar para eles pronto,
quero agora entoar mais fortes cantos
e mais soberbos que os jamais ouvidos
sobre a face da Terra.

Hei de entoar cânticos de paixão
para lhes dar passagem,
e hei de entoar cantos também a vocês,
réus à margem da lei,
pois eu os fito com olhos de parentesco
como a todos os outros.

Hei de entoar
o verdadeiro poema das riquezas,
a ganhar para o corpo e para a alma
tudo que adere e toca para a frente
e não é suprimido pela morte.

Hei de cantar o amor-próprio
e hei de mostrar que ele está na base de tudo,
hei de ser o cantor da personalidade.
Hei de mostrar macho e fêmea
como iguais um do outro,
e os órgãos genitais e os atos sexuais
que se concentrem em mim,
pois de vocês vou falar
em alto e bom som
para provar que vocês são
maravilhosos,
e hei de mostrar
que no presente não existe imperfeição
nem pode haver nenhuma no futuro,
e hei de mostrar
que coisa alguma pode acontecer
mais bonita que a morte,
e hei de tecer um fio
atravessando os meus poemas todos
e em uma coisa só
ligando o tempo e os acontecimentos,
pois que todas as coisas deste mundo
são perfeitos milagres
cada qual mais profundo.

Não vou fazer poemas referentes às partes,
mas vou fazer poemas, canções e pensamentos,
referentes ao todo,
e não hei de cantar com referência a um dia
mas com referência a todos os dias,
e não farei poema, nem parte de poema,
quie não seja de referência à alma,
porque, tendo já visto as coisas do universo,
acho que nada existe,
nem existe partícula de nada,
que não tenha uma referência à alma.


Walt Whitman, Folhas das folhas de Relva, Ediouro - 1983

Quem aprende minha lição completa?


















Embora, em minha vida cotidiana, tenha esta semana que passou sido uma como qualquer outra, sabemos que não o foi. O acontecido no EUA foi por demais significativo. Mas não vou me estender sobre a eleição de Barack. Muitos já o fizeram com emoção e beleza que não sou capaz. Eu também me emocionei e me senti feliz.
























Há algo maior por trás disso tudo, e é esse algo que me fez chorar. Chorar de regozijo. Uma emoção semelhante àquela que se sentiu após a rendição alemã em Stalingrado ou nas praias de Salamina após à histórica batalha.
Uma coisa muito boa venceu uma coisa muito ruim, apenas isso.
Haverá um mundo melhor. Juntos construiremos algo que sozinhos não o poderíamos fazer.
Parabéns ao povo norte-americano pelo passo indiscutível dado rumo à sua maturidade espiritual, e Obama é aquele que aprendeu a lição completa.
Walt Whitman, onde quer que esteja, está soltando urros de alegria.

domingo, 2 de novembro de 2008

A dança de Shiva






















Do bramanismo hindu - espero não estar sendo pleonástico - vem um tratamento da diferença que, sempre, me faz pensar no quanto estamos perdidos com o nosso pretenso e hipócrita "Todos são iguais perante a lei". A maneira como a mito poética brâmane trata as dualidades é por demais séria e sincera para não nos sentirmos envergonhados de nossa suposta superioridade civilizatória ocidental. Há muitos anos estudei um pouco do budismo tibetano, hoje já quase não me lembro mais dos conceitos, dos diversos mitos, da gênese cosmogônica. Mas ficaram lembranças impregnadas nas cadeias do DNA; foi uma época muito louca de minha vida.
Caiu-me à mão um livro de poesias de Décio Pignatari, 31 poetas 214 poemas, que traz uma antologia de poemas de épocas distintas, começando com os "hinos do Rigveda (séc. XVI a.C.)" e os "poetas-santos de Xiva (séc. XI a.C.)" de onde trago esta pérola de simplicidade:

Poetas-santos de Xiva

DASIMAIA

1-

A esse mistério
(que traz a si mesmo dentro)

Indiferente a diferenças

Rezo, Senhor.

2-

Com corpo
a gente tem fome

Com corpo
a gente mente

Não zombe
não censure
de novo
por eu ter um corpo

Tenha um corpo
você mesmo
uma vez
como eu
e veja o que acontece

Ó Senhor.

3-

Se eles veem
seios e cabelos compridos
dizem que é mulher

se barba e costeletas
é homem

o suspenso
entre ambos
que é?

Ó Senhor.



Se alguém responder à pergunta com:
_ É um tremendo de um Travesti.
é porque é incapaz de se colocar em outro tempo-espaço e perceber a sutileza da pergunta proposição. Tobias costumava dizer que, para se chegar a um equilíbrio, o indivíduo macho deveria se mostrar 51% masculino e 49% feminino e a fêmea o contrário evidentemente.

O mundo precisa deixar de ser governado por machos 99% masculinos. Paredes de insensibilidade.

Provérbios gregos