quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Se não foi um ciclone, o que foi?
Estou em fase vazia. Trabalhando muito. Quase estressado com a escola da tarde; os jovens, claro. Por isso poucas palavras. Hoje à noite pude presenciar pela primeira vez algo parecido ao que se poderia chamar de um ciclone. As árvores vergaram até o chão. Muitas foram arrancadas pela raiz. Uma parte imensa da cidade ficou sem luz. Vários alagamentos. Postes tombaram e transformadores explodiram. Telhas voaram. Fiquei bastante impressionado.
domingo, 16 de novembro de 2008
A San Felice

Terminei de ler "A San Felice". Gostei. Dizem ter sido considerado pelo autor como o melhor dos seus últimos dez anos de vida. Mas, no meu projeto de ler a obra completa de Dumas Pere, onde ainda estou nos primeiros passos, não tenho dúvida: "Memórias de um médico" é o mais tocante. Uma epopéia de 25 anos que antecede e finaliza no terrível ano de 1793. Acho que foi o livro que mais me tocou entre todos os que li. E olha que há, na disputa, Homero, Dostoievsky, Victor Hugo, os atenienses, o Rosa e outros menos conhecidos. Já disse aqui antes: Não sei porque adoro as tragédias.
Mas voltemos à "San Felicie". A história se dá durante os preparativos e instauração da República Partenopéia e da restauração, logo em seguida, da monarquia bourbônica no Reino das Duas Sicílias, que para quem não sabe, ocupava a ponta sul da península itálica, de Nápoles até Malta. Fernando IV, um rei medíocre, e Carolina, rainha de personalidade forte ( a verdadeira monarca), como todas as Habsburgos. Dumas faz o que se pode chamar de 'romance histórico'. O principal do enredo é histórico, mas entre os heróis, um é fictício: Salvato Palmieri. Dumas também modifica a história pessoal de Luisa San Felice para poder adequa-la ao romance com Salvato. Sua morte trágica, no entanto, foi real. É interessante como Dumas desenvolve seus romances basicamente em descrições e narrações. Há relativamente poucos diálogos. E, o que mais me chama a atenção, o pouco interesse (proposital?) no mundo interior dos heróis e heroínas. Neste livro, chega ao ponto de tornar mais interessantes os personagens secundários ou mesmo os vilões. O Rei Fernando, um completo escroque, chega a se tornar interessante. O mesmo com Maria Carolina, figura definitivamente inferior à sua irmã Maria Antonieta. Ou mesmo o Cardeal Rufo, que apesar de honesto, cometeu um desserviço à humanidade; aquela história que de boas intenções o inferno está cheio. Todos personagens nos quais o autor se detem por muitas mais vezes que em Luisa ou Salvato.
Mas termina o livro com ela. É impressionante, também, como com apenas uma frase a personagem se nos mostra inteira como é. Quando ela, já no cadafalso, se ajoelha sobre o cepo e pergunta ao medonho carrasco: _Assim está bom, assim está, senhor? Oh, por favor, não me faça sofrer! A gente se dá conta que a nossa heroína era uma moça de 23 anos, delicada e apavorada com o que lhe estava acontecendo. A forma como se dá a sua morte é terrível. Mas quem quiser saber que leia o livro.
Agora, para não deixar de lado outro projeto (a literatura francesa), estou lendo "O homem que ri", de Victor Hugo. Já nas primeiras páginas achei maravilhoso. A narração do encontro da criança com o enforcado e a visita dos corvos é extraordinária.
Ah, os livros, quase tudo que me resta!
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terça-feira, 11 de novembro de 2008
Ainda Alejandra Robles
Para quem ainda duvida do talento da moça.
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sábado, 8 de novembro de 2008
Coração pã-americano, Alejandra Robles, ou eis gunaikás...

Leio bem o espanhol, mas para escrever e falar sou um desastre. Ainda assim...
Esta chica es mui guaca. Y su banda tambien. Viva America!
As verdadeiras artistas e os artistas também me emocionam muito. Principalmente no nascituro. Essa moça é das grandes.
Que a Deusa a tenha!
E Deus a eles.
Tudo é por demais...
Whitman feliz
E como uma coisa concatena a outra e gosto e divulgo a boa poesia, da tradução de Geir Campos:
Walt Whitman, Folhas das folhas de Relva, Ediouro - 1983
Democracia!
Junto a você, ao alcance da mão,
há agora uma garganta
que infla e canta com alegria.
Ma femme!
Pela ninhada nossa e além de nós,
pelos que já são daqui
e pelos que estão por vir,
eu, exultante de estar para eles pronto,
quero agora entoar mais fortes cantos
e mais soberbos que os jamais ouvidos
sobre a face da Terra.
Hei de entoar cânticos de paixão
para lhes dar passagem,
e hei de entoar cantos também a vocês,
réus à margem da lei,
pois eu os fito com olhos de parentesco
como a todos os outros.
Hei de entoar
o verdadeiro poema das riquezas,
a ganhar para o corpo e para a alma
tudo que adere e toca para a frente
e não é suprimido pela morte.
Hei de cantar o amor-próprio
e hei de mostrar que ele está na base de tudo,
hei de ser o cantor da personalidade.
Hei de mostrar macho e fêmea
como iguais um do outro,
e os órgãos genitais e os atos sexuais
que se concentrem em mim,
pois de vocês vou falar
em alto e bom som
para provar que vocês são
maravilhosos,
e hei de mostrar
que no presente não existe imperfeição
nem pode haver nenhuma no futuro,
e hei de mostrar
que coisa alguma pode acontecer
mais bonita que a morte,
e hei de tecer um fio
atravessando os meus poemas todos
e em uma coisa só
ligando o tempo e os acontecimentos,
pois que todas as coisas deste mundo
são perfeitos milagres
cada qual mais profundo.
Não vou fazer poemas referentes às partes,
mas vou fazer poemas, canções e pensamentos,
referentes ao todo,
e não hei de cantar com referência a um dia
mas com referência a todos os dias,
e não farei poema, nem parte de poema,
quie não seja de referência à alma,
porque, tendo já visto as coisas do universo,
acho que nada existe,
nem existe partícula de nada,
que não tenha uma referência à alma.
Walt Whitman, Folhas das folhas de Relva, Ediouro - 1983
Quem aprende minha lição completa?

Embora, em minha vida cotidiana, tenha esta semana que passou sido uma como qualquer outra, sabemos que não o foi. O acontecido no EUA foi por demais significativo. Mas não vou me estender sobre a eleição de Barack. Muitos já o fizeram com emoção e beleza que não sou capaz. Eu também me emocionei e me senti feliz.

Há algo maior por trás disso tudo, e é esse algo que me fez chorar. Chorar de regozijo. Uma emoção semelhante àquela que se sentiu após a rendição alemã em Stalingrado ou nas praias de Salamina após à histórica batalha.
Uma coisa muito boa venceu uma coisa muito ruim, apenas isso.
Haverá um mundo melhor. Juntos construiremos algo que sozinhos não o poderíamos fazer.
Parabéns ao povo norte-americano pelo passo indiscutível dado rumo à sua maturidade espiritual, e Obama é aquele que aprendeu a lição completa.
Walt Whitman, onde quer que esteja, está soltando urros de alegria.
domingo, 2 de novembro de 2008
A dança de Shiva

Do bramanismo hindu - espero não estar sendo pleonástico - vem um tratamento da diferença que, sempre, me faz pensar no quanto estamos perdidos com o nosso pretenso e hipócrita "Todos são iguais perante a lei". A maneira como a mito poética brâmane trata as dualidades é por demais séria e sincera para não nos sentirmos envergonhados de nossa suposta superioridade civilizatória ocidental. Há muitos anos estudei um pouco do budismo tibetano, hoje já quase não me lembro mais dos conceitos, dos diversos mitos, da gênese cosmogônica. Mas ficaram lembranças impregnadas nas cadeias do DNA; foi uma época muito louca de minha vida.
Caiu-me à mão um livro de poesias de Décio Pignatari, 31 poetas 214 poemas, que traz uma antologia de poemas de épocas distintas, começando com os "hinos do Rigveda (séc. XVI a.C.)" e os "poetas-santos de Xiva (séc. XI a.C.)" de onde trago esta pérola de simplicidade:
Poetas-santos de Xiva
DASIMAIA
1-
A esse mistério
(que traz a si mesmo dentro)
Indiferente a diferenças
Rezo, Senhor.
2-
Com corpo
a gente tem fome
Com corpo
a gente mente
Não zombe
não censure
de novo
por eu ter um corpo
Tenha um corpo
você mesmo
uma vez
como eu
e veja o que acontece
Ó Senhor.
3-
Se eles veem
seios e cabelos compridos
dizem que é mulher
se barba e costeletas
é homem
o suspenso
entre ambos
que é?
Ó Senhor.
Se alguém responder à pergunta com:
_ É um tremendo de um Travesti.
é porque é incapaz de se colocar em outro tempo-espaço e perceber a sutileza da pergunta proposição. Tobias costumava dizer que, para se chegar a um equilíbrio, o indivíduo macho deveria se mostrar 51% masculino e 49% feminino e a fêmea o contrário evidentemente.
O mundo precisa deixar de ser governado por machos 99% masculinos. Paredes de insensibilidade.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Aos teóricos da educação, vão tomar...

Novamente peço desculpas aos leitores pelo título da postagem, mas me defendo dizendo que é o meu sentimento mais verdadeiro. E como este blog é meu, escrevo o que quiser. Certo?
Certo. Então vamos ao que interessa.
Entre meus alunos jovens e adultos da escola noturna, creio haver um ou dois, no máximo, que, eventualmente, leem alguma literatura. A maioria (dos que leem quaisquer coisas) só lê os jornalecos de 0,25 cents ou a Bíblia. Quando lhes digo que não acredito em Deus eles sempre me dizem que Jesus me ama assim mesmo. Sempre me calo depois dessa. O fato é que acredito em Deus cá com os meus botões. O faço à minha moda e, como não quero evangelizar ninguém, guardo para mim.
Mas fiquei ligeiramente feliz com os meus alunos da tarde pois que os vejo alguns com livros interessantes debaixo dos braços, tais como a aluninha que lia um calhamaço de 400 páginas sobre mitologia nórdica. Um luxo! Outro dia era outra com a mitologia greco-romana.
Mas o fato é que entre esses meus adolescentes - o possessivo é brincadeirinha hein! - há alguns que gostam de ler. Muito me surpreendeu. Principalmente em se tratando de uma escola de periferia. Não quero parecer preconceituoso ou racista, mas minha experiência de 6 anos com escolas de periferia me mostra que a maioria absoluta dos jovens e adolescentes pobres só gosta mesmo é de ouvir e dançar o créu e semelhantes. Quanto digo maioria absoluta é que quero dizer mais de 50 %.
Por isso e outras momunhas mais é que tenho vontade de mandar às favas (para não....) aqueles que me vêm dizer que é preciso lidar com a juventude na base do diálogo e da concessão. Isto é, você, que é professor de música, ou que faz sua licenciatura, quando for dar aula nas escolas públicas brasileiras, se prepare, pois vai ter que ensinar a moçada a ler partitura ao som do rap e do funk. Beethoven ou Mozart nem pensar. Esqueça!
Mas nem tudo está perdido como pudemos ver com as nossas queridas alunas leitoras dos mitos. Sempre pode ser possível realizar algum trabalho diferenciado com um pequeno grupo de crianças, adolescentes e jovens mais sublimados, onde o professor de música vai poder ensinar de Luis Gonzaga à Villa-lobos e os professores de arte vão poder mostrar imagens de Tintoretto, El Greco ou Velasquez, por exemplo, sem ter que se incomodar com 35 alunos conversando e ridicularizando os mestres e a sua beleza.
Podem me chamar de reacionário, autoritário, arrogante ou coisas parecidas. Mas em aula minha ninguém escuta o créu e os da família. Quem quer escutar essas coisas tem sempre a sua casa é o que digo.
E como dizia Galileu na Galiléia: "A beleza é que vai salvar o mundo"
E tenho dito.
Calor e alimentos
Amigas e amigos, cuidado com os alimentos nesta época de muito calor. Ontem, após comer uma moqueca de cação, passei tanto mal que fui parar no hospital. Tomei sorinho na veia - coisa que adoro - e depois fui pra casa descansar, o que fiz até às 10 horas da manhã de hoje. É claro que, não gostando de cação, não deveria tê-lo feito, burrice nº 1. Comer moquecas sem que sejam feitas por mamã e, inda por cima, em minas gerais, foi a burrice nº2. Saibam que sou filho da capixaba D. Norma, que faz deliciosas comidas com frutos do mar e que, vez ou outra, me brinda, como outro dia mesmo, com gostosos peixes, siris e camarões. Adoro.
Comer essas coisas, no entanto, em restaurantes mineiros não especializados, aviso, é fria!
Mas então, após ter saído quase correndo da sala de aula para ir vomitar no banheiro, e ficar indo e voltando dali por mais de uma hora, decidi que tinha de ir a um hospital. Deixei a moto na escola, o que me está preocupando, e ganhei uma carona até o Semper. Quase eternos vinte minutos.
Agora já estou bem, só ficou uns restos da diarréia, que também já está passando.
Então fica o toque: não comam peixe em qualquer lugar. Especialmente cação, que é um peixinho muito do safado...
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