quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sobre os tempos

Uma pausa nas belezas da arte e da literatura para comentar as atualidades (que são belas também).

O presidente Lula recebeu um telefonema de Bush, o norte-americano, convidando o brasileiro para participar de uma reunião do G8 (os sete países mais ricos do mundo mais a Rússia); quer escutar suas opiniões. Achei lá no blog da Glória.

"No telefonema, de aproximadamente 15 minutos, Bush aproveitou para consultar Lula sobre a disposição da Índia em retomar as conversas para a conclusão de um acordo na Rodada Doha pela liberalização do comércio."

Me deixou com um bom sentimento de amor à mátria Brasileira.

sábado, 18 de outubro de 2008

A San Felice

Estou, há quarenta dias, lendo um livro do Dumas pai (mais um), um dos últimos dele e preferido, chamado "A San Felice".
Estou com medo de terminá-lo.
Ele vai matar a todos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Maria Antonieta


Os que acompanham este blog há mais tempo sabem de meu fascínio por momentos dramáticos da humanidade. Desde a lendária divisão dos sexos ocorrida na não menos lendária Lemúria, passando pelas progressivas destruições do continente atlante, até a nossa civilização. Aí, a revolução patriarcal do neolítico; as guerras entre os primeiros impérios; os gregos e suas Tróias e Termópilas; Roma e o advento do Cristo; as invasões bárbaras e o questionável silêncio medieval; a lenta agonia de Constantinopla e o golpe de misericórdia de Maomé II; as navegações; as Américas; a revolução francesa e as grandes guerras mundiais. Não falemos de hoje, que está tão perto que minhas vistas cansadas não conseguem ver. De todas, a que mais atrai é, sem dúvida, a revolução francesa. Apesar de parecer tolice, tenho simpatias pela aristocracia e, em especial, pela figura de Maria Antonieta. Muito me espanta a imaginação o contraste entre o luxo indizível de Versailles e o quartinho de 16 m2 da Conciergerie que ela ocupou em seus dois últimos meses de vida. Das filhas de Maria Teresa, também Marias, duas pode-se dizer que se destacaram na história. Mª Antonieta e Mª Carolina. A primeira foi rainha de França, a segunda do reino das Duas Sicílias. Após tanta leitura sobre essa época da história (leitura certamente ainda muito superficial), guardo de Mª Antonieta a imagem de uma mulher frívola que não soube perceber a revolução. Em seu pequeno mundo do Petit Trianon não via que havia ao seu redor um mundo em ebulição. Aqueles vinte últimos anos do século XVIII foram um daqueles grandes momentos dramáticos da história do mundo a que me referi. E Mª Antonieta não o viu; pelo menos até à fatídica noite de 5 para 6 de outubro de 89, quando uma turba de mulheres, instigadas por Marat (só podia) invadem Versailles e, por muito pouco, não foi ali mesmo que Antonieta deu adeus ao mundo. Desde então, durante os quatro seguintes anos, a rainha vai lentamente decaindo e a heroína (sim, ela sabia o que lhe estava reservado) aparecendo. As filhas de Mª Teresa eram mulheres fortes, como ela. Dadas à voluptuosidade, apreciavam os prazeres amorosos e, parece, nutriam carinhos especiais às suas favoritas. Grandes parideiras; Carolina teve dezoito filhos, Antonieta quatro. E só não os teve mais que a morte não lho permitiu. Carolina lutou com mais argúcia pela coroa e pela cabeça. A morte da irmã já lhe havia avisado do perigo. Carolina não teve demasiadas dúvidas quando teve que fazer rolar cabeças para preservar a sua. Antonieta não me parece ter sido uma mulher capaz de decretar a morte de alguém. Muito embora um colar de brilhantes podia mesmo alimentar muitas pessoas. Confortos de Rainha.

Fico pensando que, se aquele seu último ano e meio de vida fosse colocado na balança, em relação aos anos de Rainha ainda no poder, a balança se equilibraria.

Carolina preservou a coroa e a cabeça.

No 16 de outubro de 1793, Mª Antonieta foi guilhotinada e seu corpo enterrado, junto com a cabeça, em uma cova comum.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

coroai-me de rosas, maria...






















Coroei-te de rosas senhora, inda
os espinhos, que se me perfuravam os dedos...

Os certamente centenas de milhares de milhares de poemas escritos para se coroar alguém me fazem pensar: O que é coroar alguém de flores? Tecer uma grinalda com hastes e galhos e botões, costurando as fibras, os talos; uma arte. Arte perdida certamente. Ou quase. Quem hoje em dia sabe a técnica de se tecer uma coroa de flores? Na internet, procurando-se, nada se acha. Tenho vontade de conseguir as flores e tentar tecê-las. Tranças de três fios que são fáceis.
Bouganvilles, boninas, jatobás-mirins.
Mas e as rosas? Como pode ser possível trançar uma coroa de rosas sem se furar os dedos todos de espetadas? Os galhos das rosas são totalmente espinhentos...
e duros, e rígidos; não se vergam e os espinhos são fortes; não é à toa que os melhores cachimbos são feitos de galhos de roseira.
De forma que tecer-se uma coroa de rosas há de ser uma obra de arte.
Certamente que alguma outra estrutura vegetal deve servir de base para se entrelaçar as rosas, o que se deve fazer utilizando-se, seguramente, seus próprios espinhos. Mas para tal deve ser necessária uma grande dose de talento e arte.
Primeiramente para não sair logo de cara se espetando nos espinhos. É preciso conhecer a maneira de segurar o talo da roseira sem se ser ofendido pelo espinho.
Depois, há de se saber o lugar certo de cortá-la de forma a se poder aproveitar o desenho do galho e a direção da floração. Se bem que esta segunda parte é secundária, ou não.
Para isso, só se me afigura possível com o auxílio de uma segunda planta que, a princípio, deveria ser algum tipo de trepadeira. Ou seja, uma planta flexível,
onde se amarrariam, de forma agradável ao olhar e ao vestir-se, a grinalda. Ou seja, ela não deveria espetar quem a segurasse e nem parecer desarmoniosa aos que a vêem.
E aí entra toda a coisa do desenho, da escultura e da pintura. Esta no que diz respeito às cores das diversas qualidades de flores, e as nuances.
Em Pindorama eram as penas de mutuns, uirapurus, araras, cores iridescentes. As coroas de flores de nossos índios eram os endoapes.
Mas, voltando às rosas, havia de ser uma grande demonstração de amor e sacrifício tecer-se uma coroa com a rainha das flores, que certamente devia ferir bastante os dedos.
Mas havia algo mais nesse ritual de tecer e coroar. Era uma espécie de celebração da beleza e da vida, um culto também à natureza, à madre-terra.

Se não, vejamos em Anacreonte a relação das flores, especialmente das rosas rubras, com o vinho, com o amor e com as festas a Baco. Algumas invocações em fragmentos:

"A rosa dos amores
A Baco misturemos!
De rosas coroados
A taça levantemos!
O riso sobre os lábios,
Bebamos sob as rosas!
Rosa, glória das flores,
Da primavera encanto,
Mimo dos próprios deuses,
Nas cores volutuosas!
Ergamos nossas taças.
Bebamos sob as rosas!
Se o filho de Afrodite
Vai, na dança ligeira,
Dançar em meio às Graças,
Tu, rosa, estás-lhe ornando
A bela cabeleira!...
Oh! já! Trazei mimosas
Coroas! Soem liras!
Fronte cheia de rosas,
Eu vou dançar, Dionissos
Com a rapariga nova,
Os véus a voar nos ares,
De seios tremulantes,
Em torno aos teus altares!"

"Todos, coberta a fronte
De rosas -- rubra orgia --
Oh! vamor rir, bebendo
O vinho da alegria!"

"_Com a primavera coroada,
Louvor à rosa delicada!
Junta-te, amiga, a estes meus cantos!"

"_Do artista é objeto dos cuidados
Entre os discursos que ela excita.
Planta das Musas, delicada,
É doce até por seus espinhos,
Quando nos ferem nos caminhos
Flóreos, estreitos e aculeosos...

_Doce é, nas mãos tendo-a, aquecê-la
Com dedos moles, voluptuosos...
Ó suave flor! terna e ligeira
Incendedora de amores..."

_traduções de Almeida Cousin






















Ou entre as ruínas dos amorosos versos de Safo, as flores, os cantos, as danças, as tecituras:

frag. 8
] a morte - sim a a morte eu prefiro:
ela me deixava, e entre muitas
-------------

lágrimas falava [
Ah! quanto nós sofremos,
Psappho! contra a vontade, eu te abandono!
-------------
e eu lhe respondi, então:

vai na alegria, e guarda-me na lembrança:
sabes bem como nos prendemos a ti,
-------------
não sabes? Pois quero retirar
do esquecimento, para ti [ ] [ ]..
..[ ] quanto somos felizes,
-------------

e tan[tas grinaldas] de r[osas],
de aça[frão] e violetas
..[ ] a meu lado tecias,
-------------
e tantas guirlandas
[ ] no teu colo suave,
de flores trançadas [
-------------
e..tanto perfume de flor
preciosas [ ]..[ ].
ungias; feito para rainhas;
-------------
e, sobre um leito macio,
o desejo saciavas [ ]
por [

frag. 21
o doce feitiço destes cantos
eu vou tecer para as amigas


frag.30
antigamente, era assim que dançavam
a essa hora, as mulheres de Kreta;
ao som da música, ao redor do altar sagrado
dançavam, calcando sob os pés delicados
as flores tenras da relva

frag. 39
[poikíletai mèn
gaîa polystéphanos]

a terra coroada de flores,
trama de cores e brilhos

frag.42
entrelaça, com as mãos delicadas, guirlandas
de ramos de anis, e enfeita, ó Dika,
teus lindos cabelos; fogem as Khárites divinas
da moça que vem sem guirlandas, pois gostam

das preces trançadas no brilho das cores [

frag.43
] uma linda menina colhendo flores [

frag.44
] as meninas em flor

entrelaçavam guirlandas de flores [

-Todos os fragmentos são numerados de acordo com J.B.Fontes - Variações sobre a lírica de Safo - Estação Liberdade - 1992



Não sei se pelo tempo em que viveram o poeta e a poetisa, mas havia, certamente, uma relação mais íntima com a natureza. Hoje em dia nos parece, talvez, excessivamente 'florida' suas composições.
Mas somos nós que estamos por distante demais das flores, não?
Bem, as coroas, pelo menos, só as usamos nos cemitérios, por sobre os caixões.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Um sáfico a ela que sumiu























E se você sentou-se assim de frente
Só a fitar-me e a me fazer fitar-te,
Foi que agradou-te o meu olhar ardente
E a mim a arte,

Que do teu rosto luz à toda parte,
E me deixou no coração fremente
Um palpitar, um troço, um quase enfarte.
Mas que contente!

Durou bem pouco o sonho, pois, que a gente,
Que nada tem a ver co'o nosso à parte,
Interferiu no amor assim nascente
Ao afastar-te.

Só de Afrodite ou da sidônia Astarte
Espero o auxílio ao coração que sente
A ausência tua; quando ao invés de amar-te
Se faz silente.

domingo, 12 de outubro de 2008

Crise, que crise?



















Sobre essa história toda de crise, lembrei-me de duas coisas. De Criseida, a filha de Crisis, sacerdote de Apolo. Agaménon tomou a moça como escrava, o que provocou a ira de Apolo, que lançou uma praga entre os gregos. Aquiles sugere que se lhe devolvam a filha. Agaménon, o líder do exército grego, concorda. Mas como compensação decide tomar a escrava de Aquiles, Briseida (filha de Brisis). Em uma das passagens mais belas da Ilíada, o guerreiro cruel senta-se a beira-mar e chora a perda da amante. Com esse argumento Homero começa o poema épico mais famoso da literatura:

"Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
O de homens chefe e o Mirmidon divino."

Mas francamente, quem tem medo de Guimarães Rosa é porque não conhece Odorico Mendes, que é o dono de uma das mais antigas traduções para o português do poema Homérico; essa aí de cima. Chamou-me a atenção a imagem do verde adjetivando os heróis. Não sei de onde ele tirou esse verde. Não há nada disso no original. Mas é certo que os gregos associavam o verde, mais especificamente o verde-amarelado, à palidez e à morte. Mas a palavra para esse verde - chlorós - não consta dos primeiros versos da Ilíada. Há uma outra tradução, que ando procurando e que está fora de catálogo, de Carlos Alberto Nunes. Estou aguardando a resposta de um sebo onde parece que há um exemplar dela. Vamos ver. E eu continuo com meus helenismos, que comento aqui no blog porque não tenho mesmo ninguém para conversar sobre. Mas a gente vai vivendo.

A outra coisa que a crise me lembrou vocês já advinharam. É o disco de Supertramp que vocês podem ver na imagem acima.

Crise, que crise?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

atualização

Estou trabalhando muito e não está sobrando tempo para o blog. Semana que vem vai rolar uma folga e então faço uma atualização mais decente. Apesar de ser um espaço bastante modesto, em setembro recebi 999 visitas, o que considero muito bom. Abraço a todos que dão as caras por aqui.
Josaphat

terça-feira, 30 de setembro de 2008


...uma mulher
onde estávamos
no meio de pessoas
percebi
que os seus olhos
e os meus se procuraram
o tempo todo
fiquei com medo
do que senti no peito
já faz tempo
compreendi...
do que se trata.
Mas em seguida
entristeci, pois
ela tão logo veio
foi
não entendi...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Educação e futuro

Ontem à noite assisti na tv (agora vejo tv) uma matéria sobre a educação no Brasil. Entre outras coisas vi uma velha professora amada pelas ex-alunas dizer que, hoje, o professor se preocupa mais em como vai fazer para deslocar de uma escola para outra do que com o que está fazendo ali com os alunos. Verdade. Outro dado interessante (que combina bem com o primeiro) é o salário de um professor na Coréia do Sul: R$ 10.500,00. Eu, como disse no post anterior, tenho que trabalhar 55 horas na semana, em três turnos, para ganhar 3.500. E não é só isso. Na escola da tarde não tenho sala ambiente. Tenho que ficar cada dia em uma sala diferente. Na metade delas, a minha mesa está quebrada. Somente hoje (espero) vou ter um armário meu. Na escola da noite tem sala de artes. Acontece que a professora do turno da manhã, que tem 27.000 anos de magistério, se apropriou dela. Encheu a sala de armários que alega serem dela e que, por causa disso e da grande movimentação dos professores do noturno (estou lá já há quase dois anos), não poderia me ceder espaço para colocar um armário meu. Ela não apenas tem cinco armários (daqueles grandes, de aço e de duas portas), como utiliza todos os espaços que existem embaixo das duas bancadas de alvenaria laterais. Em outras palavras, transformou o que é público em privado. Como é bastante comum no Brasil, por sinal. Além disso, as salas são pequenas, as cadeiras e mesas dos alunos são horrorosas e, em sua maioria, danificadas. As paredes, mesmo não estando pixadas, são feias e tristes em ambas as escolas. Material para eu trabalhar na escola da tarde não tem. O negócio é papel sulfite e uns lápis de cores que é melhor nem falar sobre isso. Na escola da noite, o diretor, às vezes, compra o que eu peço. Mas há outro problema lá: o vice-diretor do turno da manhã também resolveu se apropriar do público. Não deixa ninguém utilizar os computadores. Pelo menos como se precisa. Explico. Tenho um material de história da arte excelente que consiste em dez cd-roms. Precisa de ser instalado no micro para rodar um programinha que passa slides de imagens de arte de todos os tempos, enquanto uma locutora faz comentários, juntamente com quadros de biografias e as respectivas linhas do tempo. É um material muito bom e, lá na escola (por incrível que pareça), já temos um data-show. Acontece que o equipamento, que está lá desde fevereiro, ainda não foi utilizado porque o tal vice-diretor não atualizou os micros o necessário para a tarefa de conectá-los ao aparelho de projeção. Apesar das dezenas de bilhetes que lhe escrevi pedindo para resolver o problema. Não resolveu e não me autoriza a fazê-lo. Desisti.
Nesta mesma escola do noturno, no primeiro semestre, muitas foram as noites em que me deitei pensando em como iria dar cabo de um determinado aluno, se é que se pode chamar aquilo de aluno. Ameaçou todos os professores e eu já estava quase decidido a matá-lo. Em legítima defesa é claro. Para isto estava bolando um plano. Até que a direção-cagão resolveu começar a dar umas suspensões. Aí a coisa melhorou um pouco. Os bandidos amansaram. Pelo menos o suficiente para eu dormir sem ter que pensar em assassinatos.
Lá na outra escola, no segundo dia de aula, precisei pedir a uma aluna para me deixar dar a aula. Foi o suficiente para ela me avisar que se eu pegasse no pé dela, ela iria 'dar um jeito' para eu ser mandado embora da escola. Pode?
Em ambas as escolas, há jovens e adolescentes, que conhecem o melECA o suficiente para fazerem o que bem entendem sem que com isso sofram quaisquer impedimentos. Na sexta passada fomos convidados pela representante da secretaria de educação a resolver os casos de dupla repetência de qualquer jeito. Isto é, os imprestáveis para o estudo (porque eles existem) têm de ser subjugados custe o que custar. Temos que fazer algum tipo de milagre para obrigar quem não gosta de estudar a fazê-lo. Se alguém tiver alguma sugestão que me avise, pode deixar um comentário aqui no blog. E tem que ser uma sugestão que não me obrigue a ficar pensando em assassinatos durantes as noites de insônia.
Aí eu me pergunto: vale a pena ser professor? e eu mesmo respondo: Não!
Aí me pergunto de novo: O que posso fazer se sou pobre, estou com 43 anos, não tenho vocação para o comércio e não consigo passar em concursos do judiciário? e isto ainda bem, detesto juízes e advogados.
Entre outros problemas e quase nenhuma solução, será que há esperança?

Provérbios gregos