
Assisti hoje ao filme "As troianas" do diretor grego Michael Cacoyannis. O filme é de 1971 e traz no elenco Katharine Hepburn como Hécuba, Vanessa Redgrave (linda, ainda muito jovem) como Andrômaca, Geneviève Bujold como Cassandra e Irene Papas (magnífica) como uma Helena morena de longos cabelos negros. Esta Helena seria no mínimo ridícula - pois uma morena para representar uma personagem sabidamente loira é meio que uma forçada de barra - se não fosse o talento da grega. Aliás, nesse ponto estranhei o filme, pois também a personagem de Andrômaca, que sabidamente era mulata ou pelo menos muito morena é feita por Redgrave, que mais branca e loira impossível. Não tenho dúvida que as quatro penaram para realizar os respectivos papéis, todos dificílimos.
Para quem não sabe, "As troianas" é uma das peças do trágico ateniense Eurípedes que nos chegaram inteiras. A peça narra a situação das mulheres troianas logo após a queda da cidade e a matança de todos os homens, enquanto aguardam o sorteio para saberem a quem serão destinadas como escravas. É um filme angustiante pois o cenário todo é de desolação e perda. A rainha troiana, agora reduzida à servidão, vai recebendo uma a uma as lúgubres notícias trazidas pelo arauto Taltíbio: primeiro a morte da filha mais nova, Polixena, degolada sobre o túmulo de Aquiles (a conselho de Ulisses), depois a loucura da outra filha Cassandra que é levada como concubina do Rei grego Agamênon. Em seguida a prisão da nora Andrômaca e a morte do neto, filho desta, precipitado de cima da muralha da cidade por ordem de Ulisses: "Não se pode deixar viver um filho de tão grande herói; pode ele, no futuro, querer vingar o pai". Nesta passagem, quando Andrômaca recebe o comunicado de que deverá entregar o filho ao arauto, Miss Redgrave uiva como uma loba, é de arrepiar.
Katherine Hepburn é quem conduz a trama e o faz divinamente.
Irene Papas faz uma Helena dissimulada - foi assim que Eurípides a retratou na peça - que não se perturba em banhar-se na frente das demais mulheres quando todas estão a morrer de sede. Na passagem em que argumenta com Menelau, tentando seduzi-lo e, em seguida, é desmascarada por Hécuba, a gente percebe o seu constrangimento. Como eu disse, magnífica. Adoro esta atriz.
A franco-canadense Geneviève Bujold - de Ana dos mil dias, onde faz a Bolena, mulher de Henrique VIII - interpreta uma Cassandra enlouquecida e conformada com o destino.
O cenário e figurinos são excelentes (não tem nada daquele luxo do recente "Tróia"), as mulheres se trajam quase todas de preto, o uniforme dos soldados gregos é simples, como deveria ser naquele tempo e a locação parece ter sido em alguma ruína antiga da Ásia menor, uma paisagem árida e desolada.
Eurípides não acreditava mais nem em deuses, nem em heróis e nem nos homens. Conviveu com inúmeras guerras e se entristecia com o sofrimento humano, Não era sociável e dizem que um tanto misógino. Em suas tragédias, pelo menos nas que li, todos os heróis homéricos são reduzidos a crápulas, assassinos de mulheres e de criancinhas.
É o melhor filme que já vi sobre o ciclo troiano.
Com a queda de Tróia, que foi a grande guerra mundial da antiguidade, um novo ciclo começou. O mundo matriarcal ruiu de vez e o macho assumiu o seu triste papel de controlador da vida no planeta, por meio da força bruta e da violência.
Espero que não precisemos de outra guerra mundial para passarmos para um próximo ciclo.
E que esse ciclo seja de paz enfim.
Para quem aprecia a história, ainda que triste.